Imposto para robôs

robos.gifAgora que o próprio Bill Gates admite a necessidade de um imposto específico para robôs que substituam postos de trabalho humanos e que o Parlamento Europeu recomenda que se estude o problema e a melhor forma de concretizar a ideia, talvez possamos começar a aceitar o que há muito se tornou evidente: a revolução tecnológica em curso irá suprimir empregos a um ritmo muito superior ao da criação de novos postos de trabalho.

O milionário americano acredita que, se um trabalhador paga impostos sobre o seu rendimento, seria de esperar que os robôs que o substituem “fossem taxados a um nível semelhante”. Dessa forma, o dinheiro ganho pode ser utilizado para investir em carreiras onde “a empatia e compreensão humanas ainda são muito únicas”, como o apoio aos idosos ou aos jovens com necessidades especiais, explica. Bill Gates defende ainda que cabe aos governos apoiar os profissionais de baixos rendimentos afetados pela robotização do mercado de trabalho, podendo investir na educação e no aumento de serviços sociais de apoio aos desfavorecidos.

As declarações surgem no rescaldo do envio pelo Parlamento Europeu à Comissão Europeia de um relatório que pede uma maior legislação sobre o setor da indústria robótica e inteligência artificial, que a VISÃO noticiou na edição impressa da semana passada. A eurodeputada socialista responsável pela iniciativa, Mady Delvaux-Stehres, redigiu o documento face a preocupações com a relação entre robôs e seres humanos, e propôs também uma taxa sobre a utilização de robôs, para que se compensasse a perda de emprego resultante do aumento da sua presença. Os fundos seriam então orientados para formar os profissionais desempregados noutras áreas. As máquinas mais sofisticadas poderiam ainda ser consideradas “pessoas eletrónicas”, com um eventual regime de segurança social.

Na passada quinta-feira, 16, o Parlamento Europeu aprovou a resolução, mas não na totalidade. Incluiu o pedido (à Comissão Europeia) de um enquadramento ético para o desenvolvimento e utilização dos robôs e sugeriu a criação de um estatuto jurídico específico que os abranja. Foram mais longe – aqueles que tomam decisões autónomas devem ser classificados como “pessoas eletrónicas”. A iniciativa legislativa pede também a criação de uma agência europeia para a robótica e inteligência artificial.

O imposto sobre as máquinas que substituem os humanos é uma opinião que encontra algum eco pelo resto da Europa. Benoît Hamon, o candidato favorito da esquerda francesa às presidenciais, em abril, também propõe um “imposto sobre a riqueza criada pelos robôs”. Na página oficial da campanha, Hamon justifica esta medida com a redistribuição dos lucros, “que beneficiam essencialmente os acionistas”, por todos os cidadãos, servindo de pilar à sua proposta de uma “renda universal de existência”. Ou seja, um rendimento para todos os franceses.

Num futuro não muito distante – diria mesmo que já começou – a opção será entre taxas de desemprego estrutural da ordem dos dois dígitos ou uma redução generalizada dos horários de trabalho. Ambas as situações conduzem a baixos salários e perda de rendimentos, pelo que serão necessárias novas formas de financiamento para o orçamento crescentemente desequilibrado da segurança social.

Seja na forma dos actuais subsídios, seja na modalidade de um rendimento básico universal que alguns propõem, irá ser preciso muito dinheiro para pagar a inactividade forçada de grande parte da população. Parafraseando o dito de outros tempos, os robôs que paguem a crise!

 

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3 thoughts on “Imposto para robôs

  1. “(…)irá ser preciso muito dinheiro para pagar a inactividade forçada de grande parte da população”

    E eis que, quando se falava na 3ª vaga , a do conhecimento e evolução tecnológica (há quantas décadas isso foi dito e previsto por, p.e., Alan Toffler?), em vez de mais tempo para os cidadãos usufruirem e em vez de uma melhor qualidade de vida, apanhamos com o contrário – menos trabalho, menos salário e mais desumanização.

    Como é que o capitalismo se readaptará numa 4ª onda, onde a oferta suplanta a procura?
    Com….guerras?

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    • Pois… a guerra tem sido uma resposta clássica aos bloqueios do capitalismo: absorve o desemprego, estimula a produção e, no final, os que sobrevivem não têm mãos a medir para reconstruir tudo… até à próxima crise.

      Num futuro em que as máquinas farão quase tudo sozinhas, o grande desafio é trabalharmos menos para vivermos melhor.

      Agora o problema é que esse caminho não se faz pela via do capitalismo selvagem e desregulado.

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  2. Uma ideia subversiva, esta do ócio e do tempo para pensar:

    «Que o homem possa passar à sua verdadeira vida, que é a de contemplar o mundo, ser poeta do mundo e o mundo poeta para ele, de tal modo que nunca mais ninguém se preocupe por fazer tal ou tal obra. Que o homem possa passar à sua verdadeira vida, que é a de contemplar o mundo»

    Agostinho da Silva

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