Classificações internas no secundário: o que nos dizem as estatísticas

dgeec.JPGUm estudo estatístico recente da DGEEC, sobre as classificações internas no ensino secundário, apresenta-nos algumas comparações interessantes entre cursos e subsistemas de ensino, com base na evolução dos resultados obtidos ao longo dos últimos anos. Os gráficos permitem mesmo desconstruir algumas ideias feitas acerca da avaliação dos alunos do secundário e, mostram como o sistema está longe de valorizar de forma equitativa o esforço dos estudantes e, mais preocupante, de garantir equidade e justiça no acesso ao ensino superior. Algo que já se sabia, aliás, mas que uma vez mais se vê, infelizmente, confirmado.

1. Os resultados dos exames não são indicadores fiáveis das aprendizagens dos alunos. Desde 2007 a 2016 as médias dos exames (CE) registam grandes oscilações, sem correspondência com os valores, mais estáveis, das classificações internas (CIF). O que se vê no gráfico são duas linhas com fortes oscilações e sem um padrão definido, que nos revela apenas em que anos as equipas que fazem os exames nacionais realizaram uma prova mais fácil, difícil, ou assim-assim…

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2. Os alunos de Humanidades são prejudicados nas classificações internas. E isso vê-se porque depois tiram, em média, melhores notas nos exames do que os alunos com idênticos resultados de frequência do curso de Ciências e Tecnologias. O mito de que os bons alunos vão para Ciências e os maus vão para as Humanidades não será, em parte, uma construção criada a partir das expectativas das escolas, dos professores e, eventualmente, dos próprios alunos?

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3. As escolas privadas tendem a inflacionar as classificações internas dos seus alunos, proporcionando-lhes médias finais, na conclusão do secundário, que os favorecem em relação aos colegas do ensino público.

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4. O favorecimento extremo aos alunos do privado restringe-se a um conjunto relativamente reduzido de 15 a 20 escolas, onde as notas chegam a ser entre 1,5 a 2 valores mais elevadas do que a média que seria expectável ao comparar com os resultados de alunos semelhantes nos exames nacionais. É a diferença entre um colégio que coloca dezenas de alunos em cursos como Medicina e uma escola pública onde alunos tão bons ou ainda melhores ficam a umas décimas da entrada no curso pretendido.

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5. No norte do país há mais competição no acesso ao ensino superior e as escolas são tentadas a inflacionar as notas dos seus alunos. Comparando quatro dos concelhos mais populosos de Portugal, dois a norte e outros dois no sul, a diferença de médias da CI é bem visível e, não sendo de agora, esta tendência tem-se acentuado.

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6. A disparidade de resultados entre o Norte e o Sul é fortemente induzida pelas práticas avaliativas de alguns colégios. Retirando o ensino privado e fazendo a comparação apenas com as escolas públicas as diferenças subsistem, mas são muito menos significativas.

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7 thoughts on “Classificações internas no secundário: o que nos dizem as estatísticas

  1. Embora sem muito a ver com o assunto em questão, gostava de apontar aqui um pormenor do currículo que me parece bizarro, que é o facto de os alunos dos cursos de ciências terem de aturar uma disciplina trianual de português, que quanto a mim nem sequer devia já constar dos cursos de ciências do secundário.

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    • Discordo; um aluno de ciências continua a ler, escrever e falar em Português e a ter necessidade de desenvolver e aperfeiçoar o seu domínio da língua. Aliás, a continuidade do estudo da língua materna no secundário é o que sucede na generalidade dos sistemas educativos.
      Assim como também faz sentido que haja alguma presença da matemática e das ciências nos cursos de línguas, humanidades ou ciências sociais. Não sou nada a favor do que me parece ser um afunilamento precoce das áreas de estudo e de interesse dos alunos.
      Outra questão seria a pertinência de haver dois níveis diferentes de Português, como já existiram em tempos, um direccionado para os alunos das línguas e humanidades, com maior carga horária e mais focado na literatura, e outro mais generalista para os restantes alunos.

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      • Concordo inteiramente consigo, Senhor A. Duarte. Acho que deveriam ter português, incluindo aqui língua, gramática e literatura. E, já agora, que me diz do artigo de hoje no Público de Guilherme Valente? Pode ler-se no blogue De Rerum Natura. Não simpatizo com o chamado eduquês mas parece-me que G. Valente exagera com o seu catastrofismo e com a mania de que N. Crato foi o melhor Ministro da Educação que alguma vez se viu.

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  2. António, imagina a “desnatação” que isto provoca nas escolas públicas na área de influência destas privadas. Absolutamente surreal, o que se passa no grande Porto.

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  3. No ponto 1, não esquecer:

    a) a percentagem dada às atitudes e valores na CI
    b) os 25 a 30% atribuídos na CI para trabalhos mais práticos que rara e /ou dificilmente são visados nos exames do secundário.

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    • Claro, e os analistas do ME assumem isso e já se deixaram daquelas comparações directas, que eram ridículas, entre a CIF e a CE.

      O que agora notam é que a evolução da CIF, de ano para ano, tende a ser consistente, a CE vai dando saltos para cima e para baixo, o que só é explicável pela variação anual do grau de dificuldade das provas. Ou seja, estatisticamente os exames dizem-nos mais sobre o trabalho dos examinadores do que sobre os conhecimentos dos examinandos…

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