Viciados em dívida

adolescente_droga.jpgJá há muitos anos se percebeu que a estratégia mais eficaz de combate à toxicodependência não é a punição dos consumidores mas sim a que se centra na perseguição dos traficantes e no desmantelamento das redes de tráfico de droga.

Vítor Bento, um economista do regime cujo pendor para olhar a macroeconomia de uma perspectiva demasiado moralista nem sempre é do meu agrado, faz hoje uma reflexão interessante, a partir de uma analogia feliz: compara a situação dos consumidores de drogas, que arruínam a saúde e a vida para alimentar o vício, com a dos países viciados em dívida, que a deixaram crescer até um nível em que se torna insustentável.

Sem deixar de atribuir responsabilidades aos estados, empresas e famílias que se endividaram acima das suas possibilidades, Vítor Bento explica que a entrada em força da China na economia mundial gerou neste país, e noutros que lhe seguiram as pisadas, um excesso de poupança: com enormes superavits comerciais, o dinheiro que entrou não foi usado para dinamizar a economia interna nem para aumentar as importações, pelo que o excesso de liquidez foi canalizado, na forma de empréstimos, para outros países, que não se fizeram rogados perante a oferta de dinheiro barato, fácil de obter e, aparentemente, inesgotável:

Para que o excesso de poupança nestes países não se traduzisse numa perturbadora quebra da procura mundial e tornasse incapaz a absorção da produção potencial, coarctando o crescimento económico mundial, foi necessário encontrar tomadores para esses fundos dispostos a consumir a poupança exportada, transformando-a em despesa. Ou seja, foi necessário que outros países estivessem dispostos a gastar mais do que produziam, endividar-se e a registar os défices externos que “compensassem” tais excedentes.

Desta forma, o excesso financeiro originado nos primeiros, além do abaixamento das taxas de juro, deu lugar a um volumoso negócio de intermediação para aliciar potenciais devedores dispostos a absorver esse excesso. E assim se desencadeou uma orgia despesista noutros países, principalmente naqueles cujo nível de vida se encontra abaixo da média e que viram no crédito, barato e abundante, a oportunidade de uma rápida e fácil convergência: famílias anteciparam compras; empresas e governos envolveram-se em investimentos de baixo ou nenhum retorno; e um considerável montante de dívidas insustentáveis foi-se acumulando, sob a complacência de reguladores e supervisores.

Quando hoje atribuímos a crise financeira de 2007/08 e a longa recessão económica que ainda estamos a viver à preguiça, ao despesismo, ao “viver acima das possibilidades” de determinados grupos sociais, governos ou até de povos inteiros, estamos a escamotear a causa primeira do que sucedeu: o excesso de oferta de dinheiro barato que, ao mesmo tempo que estabilizou as economias dos países credores, envolveu economias como a portuguesa numa espiral de endividamento de qual nunca conseguiremos, pelos nossos próprios meios, libertar-nos.

A economia mundial, desregulamentada, globalizada e cada vez mais assente na especulação financeira, assemelha-se demasiado àqueles dealers que viciam os seus clientes no consumo de drogas duras, ameaçando-os com o corte dos fornecimentos se não arranjarem maneira de pagar cada vez mais por um produto cada vez mais tóxico e adulterado.

Assim como sucede no mundo das drogas, onde se distinguem as ilícitas das lícitas, proibindo as primeiras e regulamentando as segundas, também o sistema financeiro carece de uma regulação mais forte que restrinja o uso dos produtos financeiros mais tóxicos e controle a utilização dos restantes, estabelecendo limites às taxas de juro e ao endividamento e corresponsabilizando os credores, tanto como os devedores, pelas overdoses de dívida que acabam por se tornar impagáveis.

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5 thoughts on “Viciados em dívida

  1. Vitor Bento é daqueles representantes do capitalismo de rosto humano. Uma espécie de Marçal Grilo (este na educação).

    OT

    Já agora, fresquinho, mais estudo da DGEEC a confirmar o óbvio.
    http://www.dgeec.mec.pt/np4/%7B$clientServletPath%7D/?newsId=765&fileName=DGEEC_ComparacaoClassificacoesInternas.pdf

    Estranho que neste domínio, em que a escola pública (e quem as frequenta) é sobejamente prejudicada, mais até do que nos contratos de associação, a Geringonça não atue. Olha estes: http://www.ribadouro.com/pt/informacoes/resultados-1-fase-2016/

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    • Obrigado pelos links.

      O relatório da DGEEC tem coisas muito interessantes que espero ter tempo, ainda neste fim de semana, de analisar por aqui.

      Quanto ao Ribadouro e afins, em que toda a gente sabe como funciona o negócio e ninguém faz nada, o que pergunto é: no quadro legal do actual modelo de avaliação do secundário e de ingresso no superior, será possível fazer-se alguma coisa?

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  2. Não pretende conhecer soluções fáceis, mas a aposta na perseguição dos traficantes não resulta.
    Podemos continuar a insistir mais 30 anos que os resultados continuarão a ser insignificantes.

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    • Passei ao lado dessa questão porque me desviaria do assunto do post.

      Mas concordo consigo, o tráfico de droga é um negócio, altamente lucrativo por causa das proibições, e como tal os traficantes só podem ser vencidos, como é normal na economia, através da concorrência.
      Se o Estado vendesse as drogas a preço de custo, controlando a qualidade e desincentivando o consumo como se faz com o tabaco ou, de certa forma, com as drogas de substituição, secava rapidamente as fontes de lucro dos traficantes.
      O que não sei se interessará assim tanto, pois o dinheiro do tráfico dá muitas voltas…

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