Opacidades e silêncios no ensino superior

univ.jpgJá por aqui me referi várias vezes ao contraste entre o constante escrutínio sobre o que se passa no ensino básico e secundário – os resultados dos alunos, a carreira e a vida profissional dos professores, os rankings das escolas, as taxas de sucesso, retenção e abandono dos alunos – e o manto de opacidade que se estende sobre estes assuntos quando está em causa o ensino superior.

Ontem, foi Filinto Lima que, no Público, abordou parcialmente esta questão:

É normal falarmos daquilo que se passa nas escolas básicas e secundárias, e de tempos em tempos, no ensino superior; ensino superior que, passe a ligeireza, mais parece um feudo. Afigura-se que a desgraça e os males estão no patamar inferior e, raras vezes, desconhece-se o estado da arte do que está acima. […]

O ensino superior é ainda muito fechado e a sua organização assiste à “degradação do setor”, facto apontado por vários responsáveis. É curioso que as dissertações de mestrado ou as teses de doutoramento ligadas à Educação e ao Ensino abordam, quase invariavelmente, temáticas relativas às escolas básicas e secundárias e, poucas vezes, assuntos relativos às universidades. Porque será?

A precariedade laboral dos professores e investigadores do ensino superior tem tido, apesar de tudo, alguma visibilidade junto da opinião pública, mercê das denúncias de que haverá nalgumas instituições professores a trabalhar pro bono ou a receber salários pouco mais do que simbólicos. Ou com vínculos precários a instituições onde trabalham há décadas. Mas tudo isto tende a ser abafado, naquela convicção que muitos ainda terão, incluindo os próprios visados, de que quanto menos se falar melhor.

Também se sabe muito pouco sobre o sucesso académico dos universitários. Se um estudante se atrasar um ano a concluir o secundário isso é, como alguém dizia na conferência dos ex-ministros do outro dia, uma “destruição de capital humano”. Mas levar cinco ou seis anos a fazer uma licenciatura de três pode trazer virtualidades inesperadas. E até acredito que traga, nalguns casos. Mas a verdade é que não se fala disso, nem há, muitas vezes, dados estatísticos que permitam caracterizar com rigor o que se passa, neste e noutros domínios, no ensino superior.

Estará na altura, como defende Filinto Lima, de começarmos a olhar a Educação como um todo, vendo os problemas de forma global e, sem descurar as especificidades de cada nível de ensino, reconhecer que há problemas que são comuns e que só se resolverão devidamente quando forem enfrentados na sua globalidade.

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2 thoughts on “Opacidades e silêncios no ensino superior

  1. Excelente, António Duarte. Gostaria de ver este, e outros, comentários publicados na imprensa diária. Pertinência , clareza e profundidade não lhes faltam. Vamos a isso Dr. António Duarte !

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