Perfil dos alunos à saída da escolaridade obrigatória: o regresso do eduquês?

Muito competentes, é o mínimo que se pode dizer dos alunos que irão concluir, nos próximos anos, o ensino secundário. Pelo menos tendo em conta o novíssimo perfil de competências definido pela equipa dirigida por Guilherme de Oliveira Martins e que ontem foi publicamente apresentado.

O documento tem por base oito princípios que acentuam um perfil predominantemente humanista, o que não deixa de ser curioso se tivermos em conta o número crescente de alunos que se tenta encaminhar para o ensino profissional e que, entre os cursos científico-humanísticos, a clara primazia tem sido obtida pelo de Ciências e Tecnologias. Ora estes são precisamente os percursos curriculares onde menos se desenvolve a vertente humanista do currículo.

Quanto ao perfil de saída propriamente dito, a equipa de trabalho define-o assim:

Pretende-se que o jovem, à saída da escolaridade obrigatória, seja um cidadão:

  • dotado de literacia cultural, científica e tecnológica que lhe permita analisar e questionar criticamente a realidade, avaliar e selecionar a informação, formular hipóteses e tomar decisões fundamentadas no seu dia a dia;
  • livre, autónomo, responsável e consciente de si próprio e do mundo que o rodeia;
  • capaz de lidar com a mudança e a incerteza num mundo em rápida transformação;
  • que reconheça a importância e o desafio oferecidos conjuntamente pelas Artes, as Humanidades, a Ciência e Tecnologia para a sustentabilidade social, cultural, económica e ambiental de Portugal e do mundo;
  • capaz de pensar critica e autonomamente, criativo, com competência de trabalho colaborativo e capacidade de comunicação;
  • apto a continuar a sua aprendizagem ao longo da vida, como fator decisivo do seu desenvolvimento pessoal e da sua intervenção social;
  • que conheça e respeite os princípios fundamentais da sociedade democrática e os direitos, garantias e liberdades em que esta assenta;
  • que valorize o respeito pela dignidade humana, pelo exercício da cidadania plena, pela solidariedade para com os outros, pela diversidade cultural e pelo debate democrático;
  • que rejeite todas as formas de discriminação e de exclusão social.

O perfil de saída aponta também um conjunto de valores a incutir nos alunos, a saber: responsabilidade e integridade; excelência e exigência; curiosidade, reflexão e inovação; cidadania e participação; liberdade.

Finalmente, as competências. O documento define-as como “combinações complexas de conhecimentos, capacidades e atitudes que permitem uma efetiva ação humana em contextos diversificados. As competências são de natureza cognitiva e metacognitiva, social e emocional, física e prática.” Confusos? Os autores do documento acrescentaram um boneco para se perceber melhor. Ou não.

competencias.JPG

Acrescenta-se ainda, na parte que é talvez a mais poética do documento, que “As competências são determinantes no perfil dos alunos, numa perspetiva de construção coletiva que lhes permitirá apropriarem-se da vida, nas dimensões do belo, da verdade, do bem, do justo e do sustentável, no final de 12 anos de escolaridade obrigatória.” E distinguem-se as dez áreas de desenvolvimento e aquisição de competências-chave:

  • Linguagens e textos.
  • Informação e comunicação.
  • Raciocínio e resolução de problemas.
  • Pensamento crítico e pensamento criativo.
  • Relacionamento interpessoal.
  • Autonomia e desenvolvimento pessoal.
  • Bem-estar e saúde.
  • Sensibilidade estética e artística.
  • Saber técnico e tecnologias.
  • Consciência e domínio do corpo.

Voltarei por certo a este documento, que estará por um mês em discussão pública. Para já, desagrada-me o tom do discurso, redondo e palavroso. Noto que nada disto bate certo os planos curriculares do secundário actualmente em vigor. E não estou a ver como é que a posse de todas estas competências será avaliada nos exames nacionais que valem 30% da nota das principais disciplinas. De resto, está muito bonito e foi muito bem escrito.

No momento em que escrevo o documento completo ainda não foi disponibilizado no site do ME, pelo que usei a versão que disponibilizo aqui.

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9 thoughts on “Perfil dos alunos à saída da escolaridade obrigatória: o regresso do eduquês?

  1. Já passámos pelas flexibilidades, pelas transversalidades, pela Àrea de projecto, pelo trabalho de projecto, pelas competências, pelos conteúdos, por grupos de nível, por cidadanias várias, por competências, por conteúdos, por exames, por avaliações holísticas, formativas e sumativas, por perfis para tudo e todos, por metas curriculares, por metas de aprendizagem, por metas, por perfis, e mais flexibilizações e transversalidades, pela pedagogia da Paideia, por formações contínuas sobre como lidar com alunos consoante os signos do Zodíaco, sobre as cores que devemos vestir para captar a atenção, sobre o zen na sala de aula, a problemática dos TPCs, do peso das moxilas, pelo sexo e sexualidades, pelas hortas biológicas, pelos mais variados cursos profissionais e os seus módulos, grelhas de faltas e transformação de horas em tempos ou vice-versa.
    Tudo embrulhado em grelhas, excel, calendarizações, intervenientes, constrangimentos, reuniões e balanços irritantemente semelhantes que ficam sempre bem em relatórios para quem de direito dar 1 olhadela e sair no jornal da Junta de Freguesia/Câmara municipal.
    E colocar no site da respectiva escola.

    Afinal ainda falta descobrir a roda. Nomeadamente, uma cadeira de rodas que isto já não se aguenta.

    Párem!

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  2. E tudo isto para 2017/18.
    Creio que todos os ministros e respectivos secretários têm 1 formação em técnicos de radiologia- “Quietinhos; não respirem. Já está”
    ” Próximo!

    Eu cá vou sentar-me a ver como é. Tenho é de respirar.

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  3. Um pormenor sobre o “boneco” para a gente perceber melhor.

    Está mal feito.

    Esqueceram-se de transformar aquilo numa espécie de círculo e não em termos de uma linha.

    Ou seja, as competências adquiridas deverão interagir com os conhecimentos, capacidades e atitudes.

    Caso contrário , tudo é estéril.

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  4. Eu dizia-lhes assim: está muito bom, agora resumam isso tudo numa página A4.
    O que daí saísse talvez já se pudesse aproveitar.

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    • Subscrevo.

      A minha formação em História leva-me a valorizar a capacidade de síntese e a abominar o eduquês pedante e palavroso que encontro por ali às carradas.

      Uma boa ideia que não possa ser explicada numa página não será tão boa ideia assim.

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  5. Discordo em absoluto. Acho o documento muito bom e não se pode resumir numa página o que se espera que se faça em 12 anos.
    É uma mudança de paradigma para trabalhar o que interessa, em vez de continuarmos nas aulas a debitar conteúdos à pressa para cumprir umas metas mal feitas.
    Sim, estou fartinha de mudanças, mas quando é bom é para mudar.

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    • Talvez me entusiasmasse se estivesse a ler aquelas coisas pela primeira vez.
      A verdade é que nada do que ali está é novo ou original. Acho é que é tão vago e palavroso que acaba por não apontar nada de concreto.
      Entre as picuinhices das metas e descritores e os perfis generalistas, parece-me haver falta de um meio-termo que tarda em ser encontrado.

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  6. Estes diferentes documentos “orientadores” ao longo das décadas, fazem-me lembrar uma peça de música de jazz; há um tema geral, e depois cada músico elabora variações.

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