Galinha gorda por pouco dinheiro

calimeroFatal como o destino: quando o mercado laboral dá tímidos sinais de recuperação face aos números avassaladores do desemprego alcançados no período da troika austeritária, lá recomeça o choradinho das empresas que não conseguem contratar os trabalhadores pretendidos.

Claro que sempre foi comum o discurso do “não querem trabalhar”, apoiado em relatos de empregadores que se queixavam de terem muito trabalho por fazer e “não haver quem o queira”. Ia-se a ver e eram geralmente empregos precários, pagos miseravelmente ao dia ou à hora, trabalhando de manhã à noite em condições insalubres ou expostos às intempéries.

Mas não é disto que nos fala a notícia do Expresso. É de empresas que procuram atrair profissionais experientes, altamente qualificados e que já têm emprego. E que agora, e cada vez mais, notam que estes preferem conservar o lugar que têm, mesmo não estando completamente satisfeitos, do que arriscar a mudança de patrão. A principal razão para assim suceder parece-me óbvia, embora seja daquelas coisas que certo tipo de empresários mostram extrema dificuldade em compreender:

Há cada vez menos portugueses qualificados, e no ativo, com vontade de mudar de emprego e a culpa é dos salários que as empresas estão dispostas a oferecer. No último ano, segundo as contas do Guia do Mercado Laboral 2017, o estudo anual da consultora de recrutamento Hays que pormenoriza as tendências do mercado de trabalho qualificado em Portugal, 53% dos profissionais portugueses rejeitaram novas propostas de trabalho, mais 6% do que em 2015. Em 49% dos casos, a recusa teve como base um pacote salarial pouco atrativo. Turismo e Tecnologias de Informação são, segundo Paula Baptista, diretora-geral da Hays Portugal, as áreas mais críticas em termos de recusas de ofertas de emprego com 76% e 64% de recusas registadas no último ano, respetivamente.

A isto chama o povo, apropriadamente, querer galinha gorda por pouco dinheiro. Não querem investir na formação dos seus próprios trabalhadores, nem apostar em jovens recém-saídos das universidades. Querem aproveitar-se da experiência adquirida por trabalhadores qualificados em empresas concorrentes. E são forretas nos salários oferecidos, ficando provavelmente à espera de seduzir futuros colaboradores com as tretas habituais do desafio de abraçar um novo projecto, de vestir a camisola, de integrar uma equipa especial de corrida.

Como é natural também, as recusas em mudar de emprego quando a proposta não é suficientemente boa para se tornar irrecusável são mais frequentes nos sectores que mais têm criado emprego ultimamente, o turismo e a informática, e onde, por esse motivo, a possibilidade de escolha, por parte dos trabalhadores, também é maior.

Aparentemente, há uma cultura empresarial ambiciosa – ou apenas gananciosa – que mostra dificuldades em lidar com o facto natural e evidente de que os trabalhadores também têm os seus próprios interesses e ambições.

E o talento para contratar bons colaboradores não se evidencia da mesma forma quando a taxa de desemprego desce, nalguns sectores da actividade económica, a valores quase residuais, como quando ultrapassava, nos anos mais negros da crise, os 15% no conjunto da economia.

Anúncios

Comentar

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s