A ADD falhada de Maria de Lurdes Rodrigues

add.jpgNão será fácil para Lurdes Rodrigues admitir agora, mesmo passados quase dez anos após o maior movimento de contestação docente contra as políticas de um governo, que a sua política falhou. Ainda assim, recorre ao discurso de subentendidos e meias verdades que estão longe de ser, ainda para mais numa socióloga de profissão, uma leitura rigorosa e coerente da realidade.

“Os resultados mostram que conseguimos melhorar em todos os níveis, apesar de não termos conseguido fazer a avaliação”, dos professores, reconhecendo responsabilidades no clima de “crispação” que a discussão motivou na altura.

“Se o tema ficou `tabu` no debate político, e não rejeito responsabilidades, é nosso dever arranjar outros instrumentos que nos permitam melhorar o trabalho dos professores”, disse a ex-titular da pasta da educação, admitindo que ao fim de 10 anos é possível fazer uma leitura diferente.

“Olhamos para trás e é um grande conforto ver que melhorámos os resultados, e que a avaliação, mesmo não tendo sido concretizada, afinal revela-se um instrumento que pode ser substituído por outros instrumentos”, afirmou, defendendo que os governantes devem fazer estas leituras.

Vamos a ver: avaliação de professores existiu sempre, antes e depois da ministra Lurdes Rodrigues. O que não havia era aquilo a que o governo da altura chamava uma avaliação com consequências, que permitisse fazer progredir na carreira docente alguns, considerados melhores, enquanto outros, piores ou menos bons, ficariam a marcar passo.

O que se pretendia era substituir o sistema anterior, em que todos progrediam, por uma avaliação que limitasse as progressões, sob o pretexto de que estas estariam reservadas aos melhores. Acabámos, escusado será dizer, num sistema onde ninguém progride, em virtude do congelamento da carreira, mas onde continuamos a elaborar religiosamente o relatório anual que nem sequer é lido.

Neste contexto, a contestação à ADD, independentemente de tudo o resto que tornou MLR uma ministra especialmente detestável pelos professores, foi perfeitamente natural e deveria ser previsível para uma académica especializada em sociologia das profissões: os professores protestaram contra uma reforma da avaliação do desempenho que punha em causa um direito até aí inquestionado – o de todos os docentes reconhecidos como competentes atingirem o topo da carreira – substituindo-o por um sistema arbitrário de quotas e uma divisão absurda entre professores de primeira e de segunda categoria que barravam a progressão até ao topo à maioria dos docentes.

MLR fala da avaliação dos professores que tentou fazer como se fosse aquele o único modelo justo e possível de implementar, e como se rejeitá-lo significasse, conforme se repetiu à exaustão naquele tempo, que os professores não queriam ser avaliados.

Seria mais honesta se contasse toda a verdade. O anterior sistema de progressões era financeiramente insustentável, pois iria conduzir, a médio prazo, à concentração dos professores nos escalões de topo da carreira. Havia por isso de restringir esse acesso e a ADD foi tida como o instrumento mais eficaz para, mantendo nominalmente todos os escalões e respectivas posições remuneratórias, impedir a maior parte dos professores de lá chegar.

Diga a ex-ministra o que disser, a ADD não se destinava a obter melhores professores, mas a conseguir professores mais baratos. Porque os menos bons continuariam a dar aulas. Aliás, dariam até mais aulas e teriam mais alunos do que os outros, os titulares, já que estes assumiriam, sempre que necessário, outras funções não docentes nas escolas.

“Olhando para trás”, como diz MLR, e olhando também para o que se passa noutros países, o que vemos que resulta, em educação, não é o sistema competitivo e punitivo que a ministra de Sócrates quis introduzir, mais sim o trabalho colaborativo entre professores que agora está na moda valorizar. Ao ponto de já nos pedirem para assistirmos às aulas uns dos outros, não para avaliarmos, mas para aprendermos.

Quando as lutas épicas da classe docente contra a ADD passaram à História, o “avaliai-vos uns aos outros” parece assim ter dado lugar ao “aprendei uns com os outros”. Já é um progresso. E na verdade temos mesmo de colaborar e ajudarmo-nos mutuamente, pois já se viu que se estivermos à espera de que sejam os governantes de turno a olhar por nós e a resolver-nos os problemas, estaremos mal.

 

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2 thoughts on “A ADD falhada de Maria de Lurdes Rodrigues

  1. Nao foi apenas a ADD de professores a causa da ” crispacao” , mas sobretudo uma obvia ma vontade contra estes, bem expressa entre outras, naquela frase que foi o seu ” mission statement” : ” Perdi os professores, mas ganhei a populacao” . Pela boca morre o peixe.

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