Mochilas pesadas: do mito à realidade

mochilas-pesadas.JPGEsta reportagem da RTP terá passado despercebida a muita gente. Mas quando se prepara uma discussão alargada em torno do peso excessivo das mochilas escolares, é útil ouvir as vozes que se demarcam das soluções fáceis que embarcam na onda do política e tecnologicamente correcto.

É o caso do ortopedista Nuno Alegrete, da Sociedade Portuguesa de Ortopedia Pediátrica, que desmonta os mitos e os erros científicos que se têm esgrimido contra as mochilas pesadas: podem ser desconfortáveis e cansativas, mas não são causadoras directas de cifoses, escolioses e outras doenças comuns da coluna. Explica até como é errada a ideia de tomar os 10% do peso corporal como referência para o peso máximo da mochila: uma criança obesa, por esse critério, poderia transportar mais peso, quando é justamente ao contrário, pois já leva o excesso de peso no seu próprio corpo.

E enquanto Filinto Lima, cada vez mais o omnipresente especialista instantâneo em tudo o que diga respeito à educação, ou os representantes das associações de pais, se mostram entusiasmados com os tablets e os manuais electrónicos como substitutos dos livros, o médico alerta para a postura corporal desadequada que as crianças e os jovens tendem a assumir quando interagem com estes dispositivos. Para já não falar nas consequências, para a saúde ocular, de somar mais umas quantas horas diárias ao tempo, já excessivo, que os mais novos passam a olhar para ecrãs.

O que esta vaga mediática contra os livros sugere é que haverá já quem se perfile como eventual beneficiário da “mudança de paradigma” na política do manual escolar. Só não sei é se os maiores interesses virão dos lados das editoras, ameaçadas pela queda dos lucros da venda de livros, tendo em conta as pressões contra o preço excessivo e a favor da reutilização, se dos fabricantes e distribuidores de material electrónico, entusiasmados com a perspectiva de fornecer umas centenas de milhares de aparelhos para que todo o aluno possa ter a sua tablete na sala de aula.

Dinheiro deitado à rua, se assim for, e basta lembrar a odisseia dos magalhões para perceber o que resultaria do investimento numa tecnologia em vias de se tornar obsoleta. Pois os tablets estarão longe de ser o “paradigma” das salas de aula do século XXI. Foram uma moda passageira e já são superados em velocidade, portabilidade e versatilidade pela maioria dos telemóveis dos nossos alunos. E para trabalhar a sério, não conseguem competir com os computadores.

Entretanto, há um conjunto de medidas simples e eficazes para, a curto ou médio prazo, aligeirar bastante o peso das mochilas. Exemplos, numa lista não exaustiva:

  • Fabricar os manuais em papel mais leve, o que só por si permitiria reduzir para metade o peso de cada um;
  • Organizar os horários de forma a que os alunos não tenham dias demasiado concentrados com disciplinas ditas de estudo;
  • Abolir a utilização de cadernos de actividades e outros acessórios desnecessários que as editores impingem aos pais – os exercícios resolvem-se no caderno diário;
  • Combater a sobrelotação das escolas onde ela ainda existe, de forma a garantir, a cada turma, uma sala de aula própria – isto permite que os alunos não tenham de andar com a mochila nos intervalos e é mais eficaz do que o uso de cacifos, onde os mais distraídos tendem a esquecer-se das coisas de que precisam;
  • Em casa, supervisionar a preparação da mochila, verificando se não andam a ser levados para a escola itens desnecessários – muitos miúdos, por pura preguiça, preferem andar com a mochila pesada a ter o trabalho diário de pôr e tirar!…

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10 thoughts on “Mochilas pesadas: do mito à realidade

  1. António, mitos por mitos, o meu caro colega também não está livre dos seus; afinal, confirmando a ideia (será outro mito?) de que todos temos telhados de vidro.
    Veja só como começa o seu texto: “Esta reportagem da RTP terá passado despercebida a muita gente.” Sem este matiz semântico, da sua completa responsabilidade, não objectivamente verificada ou comprovada, todo o seu espraiar sobre o assunto perderia o essencial do que quer dizer, marcado pela componente essencial da censura: que os outros andam a ver e a pensar precipitadamente; mas o colega é que não!
    Quer ir à minha escola? Tenho todo o gosto em recebê-lo lá. Leve o senhor ortopedista – que eu gostei muito de ouvir!, penso que em directo -, eu pago os cafés. É que, para além de tudo aquilo que o dr. Nuno Alegrete disse (tão importante!), as crianças andam mesmo com peso excessivo! Não branqueie (Ui! Que moderno palavrão…) a situação, caro colega! Não facilite o comportamento de avestruz de muitos dos nossos colegas professores, nem ponha desculpas na mesquinhez financeira, hiper-ávida das editoras! Já as estou a ver a usarem o argumento das revistas gramagens do papel para novas edições, novos preços, mais lucros.
    Vá, aceite mesmo o desafio de ir à minha escola – ou outra -, e traga o doutor consigo. Um abraço!

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    • Caro Fernando, se muita gente viu a reportagem, só tenho que me congratular com isso. Presumi, talvez erradamente, que poucos ligaram ao que ali é dito por não ver muita gente a tomar os argumentos do ortopedista em consideração.

      Na minha escola, constato todos os dias o peso e o volume das mochilas que os miúdos, sobretudo os do 3º ciclo, transportam, pelo que não estou a tomar conhecimento do problema agora, por causa da petição.

      Não quero que se façam manuais novos para substituir os que estão em vigor, mas gostaria, e defendo isso há muitos anos, que nas novas adopções os livros devam vir feitos com materiais mais leves. Mas também não gostaria que à boleia das mochilas pesadas se engendrasse um esquema qualquer para desencalhar uns milhares de tablets a vender às escolas para correrem os manuais electrónicos.

      O post que escrevi não pretende impor nada, parte de uma ideia antiga, talvez fora de moda, que diz que as melhores soluções são, frequentemente, as mais simples e as mais baratas.

      Abraço

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      • António, sem querer esgotar o assunto, ou prolongar indefinidamente esta nossa discussão, pego apenas no último parágrafo da sua resposta, que fala de “uma ideia antiga”, “fora de moda”, em que ela (a ideia) é que diz, não o António… e ainda “as melhores soluções são, frequentemente, as mais simples e as mais baratas.» Muito teríamos aqui outra vez para conversar sobre mitos! Mas, adiante.
        Deixe-me pôr-lhe uma ou duas perguntas: sinceramente, quanto pensa que se retiraria na carga diária normal de um aluno com os livros com papel mais leve? O papel mais leve é mesmo mais barato?
        Quanto à petição, é assim: tenta encostar à parede quem de direito, para além de muitos de nós conhecermos, de longa data, esta situação. Essa é a novidade da acção a que a petição diz respeito. No meu caso pessoal, a petição teve o condão de me fazer conhecer o senhor ortopedista; o colega já o conhecia? Por mim, depois de o conhecer, mantenho integralmente a opinião que já tinha.
        Outro abraço!

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        • Com papel de menor gramagem e uma encadernação em materiais mais leves conseguiria retirar pelo menos metade do peso a um manual escolar. E fica mais barato, claro. Repare na leveza de um daqueles calhamaços cheios de sudokus e palavras cruzadas que se levam para a praia. O problema é que o marketing dos manuais passa também pelo papel acetinado e as capas grossas, supostamente mais resistentes. E ao preço a que são vendidos, dá para pagar isso tudo.

          Quanto ao médico, não conheço, mas parto do princípio de que é uma voz idónea: fala da sua área de especialidade e terá uma reputação profissional a defender. E esta opinião é corroborada por outro clínico que em tempos defendeu uma posição semelhante em artigo de opinião no Público que na altura comentei:
          https://www.publico.pt/2016/09/26/sociedade/noticia/as-mochilas-e-as-colunas-tortas-1745224

          Quanto ao obrigar a discutir o assunto, com uma petição ou outra coisa qualquer, inteiramente de acordo. É também para isso que criei e mantenho este blogue, para dar o meu modesto contributo à discussão pública, de preferência informada e fundamentada, dos temas educativos.

          Abraço!

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  2. É verdade que os alunos, de qualquer idade, andam carregados com as mochilas.E não será necessário ser-se perito para se saber que esta sobrecarga faz mal à postura de alunos em crescimento, tal como o faz em adultos.Os alunos vêm curvados com tanto peso quando chegam às escolas (e quando saem).
    Alguma sorte foi a de muitos conseguirem ter aulas na mesma sala, na maioria das disciplinas. Deste modo podem ir brincar para o recreio sem aquele peso todo. E já deixo de lado umas bolas que trazem para jogar, ou algum PC para trabalhos ou algum instrumento de música para as aulas….
    De há uns anos para cá, foi ver-se a quantidade de “kits” das editoras, para além do manual propriamente dito.E o manual propriamente dito , em vez de ir diminuindo de peso, foi, regra geral, aumentanto.

    Enquanto, na base, a escola não muda, pouco será de esperar para além de “papel” mais leve. Uma solução mais prática seria todos os alunos terem acesso a cacifos de dimensões adequadas onde pudessem deixar materiais.
    Mas aqui voltamos aos TPCs , às práticas pedagógicas e às diferentes sensibilidades dos professores.
    Uma das soluções está na utilização correcta das tecnologias na sala de aula. Sou a favor. Desde que elas existam e não se percam 30 minutos a ligar-se , trocar-se cabos e mais cabos e a requisitar todos estes gadgets com 1 semana de antecedência. E mesmo assim…..há sempre problemas.

    Pior do que isto é os alunos combinarem trazer os materiais, semana sim semana não.

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  3. Boas ideias.

    Quanto ao deslumbramento tecnológico, acrescento ainda:

    – os custos inerentes.
    – a ausência de técnicos de manutenção nas escolas.
    – a diminuição do tempo útil de aula, resultante do tempo gasto a resolver os bugs dos equipamentos.
    – o cansado que provocaria nos alunos (sim, tudo o que é repetitivo cansa).

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    • Evidente.
      Basta olhar para a experiência dos magalhães: dos problemas que aquilo dava, do tempo perdido, do pouco uso que teve, e se terem gasto milhões em material que há muito tempo foi encostado.

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    • Não falo de “deslumbramento” tecnológico algum. Falo de apoio de tecnologias (e nem é preciso serem de “ponta”). Mas sim, sabemos os problema inerentes e o trabalho que dão quando as salas de aula não estão preparadas para a sua utilização e a burocracia de requerer o material é grande. Para não falar já da ausência de técnicos para a sua manutenção.

      Não entendo o “cansaço nos alunos”. Se é por o seu uso ser repetitivo, é porque a planificação de aulas- e materiais está mal feita.

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  4. Quanto a “perder-se tempo de aula”, é verdade; no entanto, se pensarmos positiva e diferentemente, creio que os alunos não se aborrecerão muito. E esse tempo é útil na “resolução de problemas”. Os mais adultos e mesmo os mais jovens são verdadeiros experts na coisa e é vê-los a pensar em soluções para pôr tudo aquilo a funcionar.

    Em 30 minutos, treinam-se as várias inteligências de que fala Howard Gardner. Afinal , não se fala em diferenciação pedagógica?!?

    Estou a brincar, mas quanto mais penso nisto, mais positivo isto me parece.

    Desde que não se repita todos os dias…..

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  5. Em relação a tecnologias educativas, defendo que se tenha permanentemente em conta a relação entre custos/utilidade/benefícios.

    Um videoprojector, por exemplo, custa menos, dura mais e é mais fácil de manter do que um dispendioso quadro interactivo.

    Computadores de secretária ocupam mais espaço nas salas de aula e são mais caros, em termos de investimento inicial, do que portáteis baratos. Mas os primeiros basta carregar num botão e passado um minuto estão prontos para trabalhar. E ao fim de meia dúzia de anos, havendo um mínimo de cuidados na utilização e manutenção, estão perfeitamente funcionais. Já os portáteis é preciso tirar das mochilas, verificar se estão carregados, ligar o carregador aos que não estão, pedir uma extensão tripla para conseguir ligar aquilo tudo, tentar resolver o problema de dois ou três com dificuldade em ligar à net e por aí fora. Quando se consegue ter os miúdos todos a trabalhar já passou metade da aula. E, claro, ao fim dos mesmos 5 ou 6 anos estão avariados ou obsoletos.

    Há, portanto, investimentos que compensam, e outros que não.

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