A indisciplina para debaixo do tapete

indisciplina.jpgA afirmação de Manuel Pereira que já ontem aqui destaquei – Sou director há 14 anos e nunca suspendi um aluno, nem nunca o farei – reflecte todo um programa de acção da administração escolar relativamente à indisciplina nas escolas: minimizar o problema, sempre que não é possível fingir que ele não existe.

Este director não suspende alunos porque alega ser capaz de resolver todo o tipo de problemas disciplinares dentro da escola. Nas entrelinhas, passa a mensagem de noutros lados, onde há suspensões ou até transferências de escola, é porque não são tão competentes a tratar estas situações como o director Pereira.

Apetece ser um bocadinho bruto e perguntar, como faz Paulo Guinote, se no dia em que for agredido por um aluno, coisa que não lhe desejo mas que já sucedeu a outros directores, manterá a mesma opinião acerca dos problemas que se resolvem portas adentro.

Contudo, a forma irresponsável como se anda a lidar com o fenómeno da indisciplina está longe de se confinar a um ou outro director que quer ficar bem na fotografia, porque a tendência para escamotear ou minimizar as situações graves que vão ocorrendo é geral em todo o sistema educativo.

Começa nos professores e numa cultura de escola que insidiosamente se propagou e que nos leva a pensar que o professor que tem problemas disciplinares na sala de aula não é competente, pois não sabe controlar a turma. A culpa não é do aluno mal comportado que conscientemente perturba a aula ou desrespeita o professor ou os colegas, mas do professor incapaz de o “domar”. Não espanta por isso que em muitas escolas tenha descido em flecha o número de participações disciplinares, não porque os alunos se portem melhor, mas porque os professores não querem ver posto em causa o seu profissionalismo por reportarem as ocorrências. Ora ignorar os problemas disciplinares, fazer deles uma triste sina de algumas escolas, turmas e professores em vez de os sinalizar, analisar, debater e, desejavelmente, resolver, tem como consequência que a indisciplina se vai insidiosamente instalando no quotidiano de muitas escolas, degradando a qualidade das aprendizagens e do ambiente escolar.

Este varrer da indisciplina para debaixo do tapete continua depois pelas coordenações dos estabelecimentos e pelas direcções dos agrupamentos, que não querem manchar a imagem da sua instituição com a divulgação da dimensão dos incidentes de natureza disciplinar. E termina no Ministério da Educação, que nos últimos anos se desinteressou completamente do assunto, só tomando conhecimento dos casos mais graves, que exigem a sua intervenção – aqueles em que é proposta a transferência de escola – e dos que envolvem a actuação das forças policiais, entrando assim no pelouro da “segurança escolar”.

Para combater efectivamente a indisciplina, é preciso fazer quase tudo ao contrário do que tem sido feito nos últimos anos: desde encorajar os professores a participar todas as ocorrências que considerem graves ou muito graves, até uma actuação das direcções escolares ou de gabinetes específicos para os assuntos disciplinares que não se fique pelo arquivamento de papéis ou pela palmadinha nas costas ao aluno infractor. E discutir abertamente entre os professores de cada escola, sem medos nem vergonhas, os sucessos e os fracassos de cada um nesta luta quotidiana por um melhor ambiente de aprendizagem nas salas de aula.

Ao ME, compete recolher os dados estatísticos das medidas disciplinares aplicadas em cada escola, tratá-los e estudá-los com o mesmo afã com analisa as variações à centésima nos resultados dos exames nacionais. Perceber a real dimensão da indisciplina, o que está a ser feito para a debelar e como poderemos ter melhores resultados no futuro a este nível: eis o ponto de partida de um longo caminho que teremos de percorrer.

 

Anúncios

3 thoughts on “A indisciplina para debaixo do tapete

  1. Estes colegas têm todo o meu respeito quando pedem e aceitam ficar com turmas que os outros acham complicadas em termos disciplinares.
    Não é, infelizmente, o que se vê com mais frequência…

    Gostar

  2. O psicólogo do poste de cima fala no ultraje que é os alunos terem de se “adaptar” à escola e aos professores; o sr director, que por acaso não é psicólogo, fala na dificuldade dos professores em “domarem” os alunos.
    Se bem percebi…….

    Gostar

Comentar

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s