Receitas instantâneas contra a indisciplina

indisciplinaNo Público escreve-se hoje, a propósito do estudo do ComRegras a que se refere o post anterior, sobre a indisciplina nas escolas. Ouvidos os interlocutores habituais, há por ali duas ou três observações que me merecem reparo e que não gostaria de deixar de assinalar.

Comecemos por Manuel Pereira, da ANDE, que parece colocar-se a si próprio num pedestal onde nem todos os directores conseguem chegar:

Sou director há 14 anos e nunca suspendi um aluno, nem nunca o farei. Porque mandar um aluno para a rua é mandar também o problema para a rua e isso não se faz. Isto não quer dizer que não tenhamos tido problemas graves, mas conseguimos resolvê-los na escola.

Ninguém diga desta água não beberei. Embora não haja quem goste, quero crer, de aplicar suspensões, a verdade é que há um quadro legal previsto para a sua aplicação. Acho razoável que um director espere nunca ter de suspender um aluno, já não me parece correcto que se iniba de aplicar uma sanção quando há comportamentos muito graves que a tornam inteiramente merecida.

E já agora informe-se o senhor director que suspender um aluno não é necessariamente mandá-lo “para a rua” ou ficar em casa. Podem-se estabelecer protocolos com IPSS ou associações locais que recebam estes alunos durante os dias de punição, para que realizem trabalho socialmente útil e contactem com outras realidades. Há escolas que o fazem, com bons resultados. Ficar uns dias sem vir à escola, mas ocupado noutras actividades, é uma forma de perceber a importância e a necessidade da escola e das coisas que só ela pode proporcionar.

Um outro representante de directores, Filinto Lima, da ANDAEP, critica as “aulas expositivas” que no seu entender potenciam a indisciplina, tese que é também apoiada pelo presidente da Confap:

“Pede-se às crianças que fiquem imóveis numa sala de aulas durante 50 minutos”, lembra o presidente da Confederação Nacional das Associações de Pais (Confap), Jorge Ascenção, acrescentando que muito do que está em causa também aqui são as práticas pedagógicas em sala de aula. “Aquilo que é normal numa criança, uma forma de estar mais irrequieta, é vista muitas vezes como indisciplina”, frisa.

Ora bem, não sendo professor apenas de título mas também de frequência diária das salas de aula, devo dizer a estes dois senhores que as aulas expositivas puras serão hoje raras no nosso ensino básico e secundário. O que se procura fazer, geralmente, é intercalar períodos não muito longos de explicação das matérias com actividades de natureza mais prática ou de consolidação das aprendizagens. E direi mais, nos últimos anos tenho-me apercebido de que não é, geralmente, nos momentos mais teóricos ou expositivos da aula que a indisciplina é potenciada. Quando os alunos percebem que o professor está a explicar um ponto importante da matéria procuram estar atentos para perceber.

Quem acha que é estimulando a “irrequietude” normal das crianças, levando-os a participar de forma mais activa nas aulas, talvez se surpreenda se souber que, nestas situações, os problemas de indisciplina tendem muitas vezes a aumentar. Pois, se os deixarem, quase todos os miúdos querem falar. O problema é quererem também ouvir os outros, por um lado, e reflectirem um pouco, eles próprios, antes de falarem para a turma.

Claro que isto também não significa que não se deva promover a participação ordenada na aula, o trabalho de grupo, as metodologias mais activas de aprendizagem. Mas tudo leva tempo, há avanços e retrocessos, nada surge de forma rápida, espontânea, linear.

Daqui se conclui que a indisciplina não é um problema fácil de resolver, muito menos com as soluções simplistas e universais de todos aqueles que, parecendo saber muito de educação, já esqueceram, ou nunca souberam, o que é gerir uma turma na sala de aula.

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4 thoughts on “Receitas instantâneas contra a indisciplina

  1. Como é habitual, o texto de António Duarte prima pela objectividade, serenidade e sensatez.Continuarei a visitar esta página.

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