A linguagem obscena de Valter Hugo Mãe

E a tua tia sabes de que tem cara, de puta, sabes o que é, uma mulher tão porca que fode com todos os homens e mesmo que tenha racha para foder deixa que lhe ponha a pila no cu.

vhm-o-nosso-reino.jpgA passagem faz parte do livro O Nosso Reino, de Valter Hugo Mãe, que consta – ou constava – das propostas do Plano Nacional de Leitura para alunos do 3º ciclo. Mas um grupo de pais de alunos do 8º ano de escolaridade da Escola Secundária Pedro Nunes, de Lisboa, considerou a linguagem imprópria para adolescentes de 13 e 14 anos e protestou contra a inclusão deste livro entre as leituras recomendadas para este nível etário.

Compreendo a preocupação destes pais, embora me pareça que poderão estar um pouco desfasados daquilo a que os adolescentes hoje se encontram expostos ou facilmente acedem graças à omnipresença da internet e a todo o tipo de conteúdos a que, sem filtros nem barreiras, ali conseguem encontrar. É precisa uma boa dose de ingenuidade para pensar que esta leitura confrontou os seus filhos com um tipo de linguagem sexualmente explícita que nunca teriam lido nem ouvido antes.

E claro que a boa literatura deve ser desafiante, retirar-nos da nossa zona de conforto, pôr-nos no lugar do outro e encarar outras realidades. Como bem explica Valter Hugo Mãe:

Lamento que quem discuta acerca do desconforto de alguns pais, de jovens de 14 anos, com “o nosso reino”, pareça ter-se esquivado a ler o livro e a perguntar se o choque provocado vem da sua efectiva leitura ou das duas frases que se autonomizaram sem contexto, parecendo sugerir que a obra é um exercício de perversão.
[…]
Acho muito bem que os pais que considerem os seus filhos imaturos para lerem determinadas obras os orientem noutras leituras. Como acho muito bem que os pais que reconheçam maturidade aos seus filhos os acompanhem em leituras desafiantes, no sentido de verdadeiramente esperar algo dos jovens que não seja apenas fútil e sempre adiado.
Sou a favor de não se tratar os jovens como estúpidos. Falta-lhes informação, mas a grandeza e a complexidade humanas estão plenamente contidas em alguém de 14 anos de idade. Importa saber se queremos fazer de conta que existem crianças com essa idade ou se preferimos atentar no esplendor do aparecimento de um ser mais pleno, perto de estar inteiro.
Seja como for, o que me compete dizer é que o meu livro não é um torpe discurso. É, muito ao contrário, uma exposição enorme de ternura. Para não o perceber basta não ler.

Também as duas associações de professores de Português tomaram posições sensatas e adequadas.

“Vivemos num tempo em que a liberdade é ameaçada por esse mundo fora e é nestes tempos que o papel do professor se intensifica na luta permanente contra a hipocrisia, o preconceito e todas as formas de discriminação”, afirmam em comunicado conjunto a Associação Nacional de Professores de Português (ANPROPORT) e a Associação de Professores de Português (APP).
Em reação às críticas sobre a inclusão do livro “O Nosso Reino” na lista de livros recomendados em leitura autónoma pelo Plano Nacional de Leitura, as associações defendem que é na escola, através dos professores, que começa a construção da verdadeira democracia, se derrubam “as barreiras sociais”, e se expõem “as fragilidades de uma visão enviesada e preconceituosa da realidade”.

Quem julgo que fica muito mal, em tudo isto, é a equipa do PNL e o seu responsável, com as suas explicações manhosas e atabalhoadas.

“Não está em causa a sua qualidade literária, o que houve foi um problema de inserção na lista. O livro entrou no 3.º ciclo por lapso, porque foi escolhido para o secundário”, disse à Lusa Fernando Pinto do Amaral, comissário do Plano Nacional de Leitura (PNL).

São centenas de livros e dezenas de listas que integram o PNL, pelo que é normal que ocorram erros deste tipo, explicou o responsável, exemplificando com um caso semelhante que aconteceu há uns anos com um livro da escritora Alice Vieira.

O que se esperaria de uma equipa que é paga com dinheiro público para escolher livros de qualidade recomendados a diferentes faixas etárias resume-se a duas coisas simples: primeiro, que fizesse um trabalho sério e rigoroso e, segundo, que fosse capaz de fundamentar e justificar cabalmente as suas escolhas, perante eventuais dúvidas e contestações. E não esconderem-se atrás do erro do computador ou de um colectivo em que todos decidem e ninguém assume o que faz e a razão por que o fez.

Lançar a “culpa” para um qualquer erro informático que fez o livro saltar de uma lista para outra é apenas, a meu ver, uma forma indigna e cobarde de fugir às responsabilidades. Que diabo, nas escolas também inscrevemos, todos os anos, centenas ou milhares de alunos em diferentes turmas, níveis de ensino e anos de escolaridade. E eles não fogem, de umas listas para outras, “por lapso”.

Continuo a achar que, em torno “do livro e da leitura” se têm andado a alimentar, a partir do depauperado orçamento da Educação, lobbies que andam muito longe de justificar aquilo que com eles é gasto. E a forma displicente como reagem às críticas é apenas uma de muitas evidências de que há estruturas no ministério mais centradas em servir-se a si próprias, ou a quem por lá anda, do que em prestar verdadeiro serviço público.

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10 thoughts on “A linguagem obscena de Valter Hugo Mãe

  1. Concordo consigo.
    O sexo alarma muita gente. Mas os rapazes de hoje sabem tanto como os do meu tempo. Veja-se o que eu disse como comentário ao seu post “Juízes, intuição e preconceito” de 24 de Janeiro. As raparigas de hoje sabem mais, pois penso que às do meu tempo não se toleravam certos conhecimentos e, muito menos, certos comportamentos.
    Apesar disso ainda há quem ache que o piropo deve ser crime. Uma razão apresentada é que alguns trabalhadores da construção civil dizem à meninas que passam “ó filha comia-te toda”. Grande crime!!!

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  2. Os grandes Mestres da Literatura nunca precisaram da linguagem obscena explicita e grosseira para se imporem.
    Tudo isto é lamentável. E nada tem a ver com puritanismo. Tem a ver com a elegância da linguagem.

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    • Concordo em parte. Eu também não simpatizo muito com aquela linguagem por razões estéticas.
      Mas…
      Em primeiro lugar a sua afirmação quanto aos grandes mestres não é verdadeira. Conheço poemas do Bocage que fazem parecer as palavras de Hugo Mãe coisas de meninos do coro. E, além do Bocage, há muito mais autores. E se estes exemplos não existissem? Isto é, se até agora nenhum grande mestre utilizou tal vocabulário há alguma razão que proiba a inovação?
      E por que é que o sexo não deve ser referido? E por que é que certas palavras da língua portuguesas muito utilizadas no dia a dia por algumas (muitas, diga-se) pessoas devem ser eliminadas das obras literárias?
      Pessoalmente (apesar de uma certa simpatia com o que diz) tenho muita dificuldade em dar resposta racional a estas questões.

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      • Não gosto de dialogar com 00… Mas há falta de melhor….

        Não será apenas uma questão de Estética, mas também de Ética, e de Respeito pela inocência das crianças.

        Não concordo com o exemplo que deu. Atribuem a Bocage javardices que ele poderia ter dito alto nas tabernas que frequentava, depois de bebidos uns bons copos. Mas jamais as publicou. Outros as publicaram e inventaram “versos” que ele nunca disse nem escreveu…

        Não conheço nenhum AUTOR (poderá haver autores) que utilize uma linguagem ordinária a este nível. Nem sequer é pornográfica: é ordinária, rasteira, nojenta.

        Quando diz «se até agora nenhum grande mestre utilizou tal vocabulário há alguma razão que proíba a inovação?» De que “inovação” fala?

        O sexo deve e pode ser referido, e conheço tantos autores que o referem, mas de um modo tão elevado, com palavras tão adequadamente sublimes, que faz dele algo apetecível e não nojento e repulsivo.

        E neste caso do VHM, o tal livro é (era) dirigido a crianças. E as crianças podem ser crianças, mas não são estúpidas, nem merecem ser tratadas como tal.

        É que não há necessidade de passar às crianças uma linguagem de tasca, quando se pode passar uma linguagem de salão, e dizer o mesmo, com elevação.

        Eu, pessoalmente, abomino os chamados “palavrões”, nomeadamente na boca de pessoas que se dizem “letradas”.

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  3. Acompanhei a vossa discussão e não acrescentei mais além do que já ficou referido no post essencialmente porque, na minha opinião, gostos literários não se discutem.

    Há evidentemente escritores que usam e por vezes abusam do palavrão ou da linguagem obscena, e outros que o evitam. Creio que já não estamos em tempos de censuras e que tudo tem o seu lugar e o seu público.

    O fundamental aqui é haver uma comissão oficial que recomenda livros aos leitores. Ora se recomendam uns e “desrecomendam” outros, deveriam ser capazes de explicar as razões pelas quais o fazem, em vez de se refugiarem nestas desculpas recorrentes do livro que entrou ou saiu da lista “por lapso”.

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    • Concordo com o que diz excepto com “gostos literários não se discutem.” Eu acho que se discutem principalmente entre pessoas que divergem. Tenho muito interesse na discussão neste caso. Quando têm a mesma opinião que eu, torna-se monótono. Também se costuma dizer que a religião não se discute. Discordo! Há quem não goste de ver posta em dúvida a sua fé, neste caso, salvo raras excepções, não imponho a discussão.
      Quanto aos conceitos de palavrão, linguagem obscena, javardice, porcarias, nojices, etc. são conceitos que mudam muito rapidamente por vezes. Se eu quisesse alongar-me, poderia dar mil exemplos de “porcarias” e “nojices” da minha juventude que hoje fazem parte do dia a dia de qualquer pacatíssimo cidadão. Na minha juventude nenhum rapaz se atrevia a usar a palavra chato na presença de meninas. Os tabus residiam (e residem) principalmente na esfera do sexo e das relações amorosas, incluindo as homossexuais. Estas então, não lhe digo nem lhe falo.
      Quanto ao lapso que refere, eu acho que pode ter sido mesmo por lapso e portanto terão dado a desculpa que corresponde à realidade. Não sei.

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      • Quando digo que não se discute não é no sentido de tentar impedir a discussão, mas apenas por achar que ela dificilmente leva a bom porto. Porque o gosto é algo intrinsecamente pessoal, embora também seja certo que há quem não goste de determinada literatura, música ou estilo artístico essencialmente porque nunca se deu ao trabalho de o tentar perceber.

        No caso do livro de VHM, que não li, tanto quanto sei as passagens polémicas são apenas duas ou três surgem enquadradas num determinado contexto onde fazem sentido.

        Não iria para o Bocage ou a poesia trovadoresca, mas pegando num contemporâneo, por exemplo Lobo Antunes, há algumas passagens dos seus livros com uma linguagem quase escabrosa. Mas não vou dizer que não é boa literatura, ainda que pessoalmente não seja um grande apreciador.

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