Professores e funcionários, a mesma luta?

escola-fechada.JPGParece estar a ser bem sucedida a greve do pessoal não docente, com níveis de adesão próximos dos 90%, segundo os sindicatos, e escolas fechadas por todo o país.

Para os professores, a greve dos funcionários deve ser motivo de reflexão, tendo em conta a descrença, o conformismo e o adormecimento que parecem ir tomando conta da classe docente. Pode até questionar-se, na linha do que escreveu Paulo Guinote, se uma greve de professores, no actual contexto, faria sentido.

Na minha opinião, a agenda reivindicativa que hoje mobilizou os funcionários das escolas é, no essencial, específica destes trabalhadores. Embora não sejam indiferentes aos professores problemas como a falta de pessoal auxiliar ou a presença de trabalhadores eventuais sem qualquer formação ou perfil para as funções a trabalhar nas escolas. E, claro, perante o bloqueio das progressões, de pouco nos serve termos, ao contrário dos funcionários, uma carreira própria: o descongelamento da contagem do tempo de serviço é, claramente, uma reivindicação comum.

O que distingue então, no descontentamento perante as políticas do governo, docentes e não docentes? É que estes encontram mais facilmente objectivos comuns para a sua luta, centrada na precariedade e nos baixos salários.

Já entre os professores, se o mal-estar é mais ou menos generalizado, as causas são as mais variadas. Nuns casos é a gestão despótica do director, noutros são os problemas de indisciplina das escolas e turmas problemáticas que lhes calharam em sorte. Há quem desespere com a vida de autêntico caixeiro viajante, a fazer o périplo pelas escolinhas do mega-agrupamento, enquanto outros, bem instalados na escola-sede, nem imaginam o que isso é. E há contratados que querem vincular, enquanto outros se contentam com um lugar de substituição. Os que pugnam pela lista graduada de colocações e os que confiam na sorte que lhes permitiria entrar pela porta do cavalo. Docentes do público e do privado que quer ser público mas só quando convém. Quadros de escola desterrados a invejar a vida dos de zona pedagógica e vice-versa. E docentes, muito ou pouco doentes, a passar à frente de todos num processo de colocações que continua a merecer críticas. Mesmo a questão dos congelamentos da carreira nos divide. Pois é sentido de modo muito diferente estar congelado no início ou no quase topo da carreira.

Dividir para reinar, foi a grande lição retirada pelos partidos do centrão da contestação à ministra Lurdes Rodrigues, que teve na altura a ousadia de afrontar todos os professores, unindo-os contra a sua política e gerando os maiores protestos colectivos de sempre da classe docente. É por isso um traço comum a todos os governos que temos tido, a aposta em ir alimentando a inveja, a desconfiança e o sentimento de injustiça entre professores.

Vencer o divisionismo, reencontrando a unidade em torno de causas comuns: eis o primeiro e indispensável passo para novas lutas dos professores em torno da sua profissão.

 

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3 thoughts on “Professores e funcionários, a mesma luta?

  1. Não é a mesma luta.
    Os funcionários protestam acima de tudo contra os baixos salários e a falta de perspetivas.
    Muitos professores protestam de barriga cheia.
    É muito diferente estar congelado com um ordenado de 500€ ou com um de 1000 ou 1500.

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  2. Como dizia ontem na tv uma assistente operacional em greve, sofrem muito no seu trabalho porque “têm de aturar os alunos e alguns professores”.

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  3. Parece-me tão importante para os professores terem uma agenda reivindicativa própria e lutarem pelos seus direitos, como serem capazes, nos momentos certos, de convergir com as lutas de outros trabalhadores das escolas e da função pública.

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