Uma economia sem trabalho

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Já me tinha parecido que o admirável mundo da nova economia que nos andam a preparar haveria de ser este, mas ainda não o tinha visto escrito com esta clareza, preto no branco, pelos defensores do sistema:

Haverá sempre necessidade de um pequeno núcleo duro de trabalhadores essenciais, talentos com grande procura e lugares de administração sénior, que as empresas pretenderão preencher com empregados a tempo inteiro, por motivos de qualidade, consistência e continuidade. Porém, fora desse núcleo duro, as empresas deparam-se com poderosos incentivos económicos e de mercado para manter baixo o número dos seus empregados a tempo inteiro. A melhor estratégia que os meus estudantes podem seguir é prepararem-se para serem trabalhadores independentes, não empregados a tempo inteiro.

Como ainda não inventaram humanos que só comam de vez em quando, rendas e prestações de casas que se paguem só nos meses em que tem trabalho ou filhos que se possam manter ou descartar à medida das disponibilidades financeiras, tenho as maiores dúvidas acerca da viabilidade de um mercado de trabalho baseado na precariedade, no desemprego e no subemprego de uma parte cada vez maior da população activa. Sobretudo quando, com excepção de um punhado de profissões de elite, a regra para os restantes tende a ser o alinhamento pelo salário mínimo.

É mau para as pessoas, que não conseguem auferir rendimentos suficientes para uma vida independente, mas também para a própria economia capitalista, baseada na produção e no consumo em massa: se não há dinheiro para comprar o que se precisa, as empresas não vendem os seus produtos. As sucessivas crises de superprodução, cada vez mais intensas e prolongadas, aí estão para demonstrar que o capitalismo não se regula sozinho, apenas produz uma crescente desigualdade social, o esmagamento das classes médias e a concentração da riqueza, à escala global, num número cada vez mais restrito de famílias e indivíduos.

Ao contrário de anteriores revoluções económicas e tecnológicas, que destruíam empregos tradicionais mas também os criavam em novas profissões, a Quarta Revolução Industrial configura-se cada vez mais como inimiga do trabalho humano: os robôs, os drones, os veículos automáticos tomam o lugar dos trabalhadores produtivos, enquanto a internet, os computadores e os sistemas informáticos permitem dispensar muitos profissionais no sector dos serviços.

E num mundo onde deixa de haver trabalho para todos – já hoje não existe! – não faz qualquer sentido querer escravizar os poucos que o conseguem obter, amarrando-os a jornadas laborais longas e intensivas. Ou descartando-os para a economia do biscate onde proliferam as uberes, as empresas de trabalho precário e a economia informal. E que aliena também os que ficam eternamente desempregados, os não-competitivos que não conseguem emprego e ficam dependentes da ajuda familiar, dos subsídios estatais ou da caridade privada – um fenómeno típico das sociedades pré-industriais ou dos primórdios da industrialização, que agora vemos renascer na multiplicação de instituições privadas de solidariedade social.

Soluções para isto? Tem de haver, e basicamente passam, ou por reduzir drasticamente os horários de trabalho, de forma a criar emprego para todos, ou por instituir um rendimento básico universal que permita desligar o trabalho daquela que tem sido, desde o aparecimento da economia produtora, a sua principal razão de ser: garantir a subsistência dos trabalhadores.

Qualquer das opções tem custos e dificuldades na sua implementação, sobrando sempre um problema básico a resolver: a necessidade de encontrar um modelo de financiamento do Estado que substitua a tributação excessiva que hoje se faz dos rendimentos do trabalho e a tributação quase nula dos rendimentos do capital imposta pelas regras do capitalismo globalizado.

Mas a coisa até seria simples: se os trabalhadores são substituídos por máquinas, estas devem a pagar a reforma dos trabalhadores que deixaram de ter trabalho. Na verdade, é a única coisa sensata a fazer, e o que se demora a perceber isto apenas demonstra o quão intoxicado está, o pensamento ocidental, pelos dogmas neoliberais.

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