Questões recorrentes num país onde existe, historicamente, um défice de escolarização e só muito recentemente se conseguiu garantir o acesso universal das crianças à escolaridade básica obrigatória.
A verdade é que se evoluiu muito depressa: a nossa escolaridade obrigatória de 12 anos é uma das mais longas do mundo, obrigando os jovens a permanecer na escola até à maioridade. O acesso ao ensino superior também se tornou muito mais acessível e, corolário lógico, os mestrados, doutoramentos e pós-doutoramentos subiram na mesma proporção.
O problema é o que fazer com os milhares de doutorados que saem todos os anos das universidades, tendo em conta as debilidades da nossa economia e do tecido empresarial, pouco especializadas, assentes em sectores tradicionais e de pouco valor acrescentado, que pouco investem em investigação e desenvolvimento de novos produtos e tecnologias. Sobram as universidades e os centros de investigação a elas ligados, que não conseguem, obviamente, empregar todos os doutorados que vão formando.
Olhando os gráficos, verifica-se que o grande crescimento exponencial dos doutoramentos deu-se entre 2005 e 2012. Constituiu uma resposta às carências então existentes, a começar nas próprias universidades, que nalguns casos só nessa altura se dotaram de um corpo docente com habilitações ao nível das exigências do ensino superior. Mas o crescimento dos programas de doutoramento estagnou a partir daí, pois esbarrou na falta de perspectivas de carreira académica ou de saídas profissionais para os novos doutores.
Para o futuro, é compreensível que o ministro Manuel Heitor defenda a sua dama e aposte no aumento dos doutoramentos, tendo como referência uma dúzia de países europeus ainda à nossa frente. Mas até ele é obrigado a reconhecer que “ter empresas que se baseiam no conhecimento é uma questão crítica”. E a verdade é que não as temos, um problema que é comum a outros países da Europa meridional onde a economia se tem vindo a centrar no turismo, nos serviços ou nas exportações de produtos pouco diferenciados.
Perante isto, a solução pode ser o investimento público, assumindo-se o Estado como o motor do desenvolvimento científico e tecnológico, como defende Gonçalo Velho, presidente do Sindicato Nacional do Ensino Superior (SNESup). Mas aqui surge o eterno problema da falta de recursos de um país enredado nas malhas da dívida e do défice: será que a crise económica e financeira, que parece ter vindo para ficar, nos dará algum desafogo para investir no futuro, em vez de apenas pagarmos a dívida do passado?