Concordamos em desacordar?

ao90.jpgPor 18 votos contra 5, foram aprovadas pela Academia de Ciências de Lisboa as Sugestões para o aperfeiçoamento do Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa que pretendem servir de base à discussão e posterior implementação de uma revisão do AO que o possa expurgar das suas maiores incoerências e arbitrariedades. Entre os que já se renderam à nova ortografia e os que teimam em usar as regras antigas, haverá ainda espaço para construir um consenso que ponha fim à proliferação de diferentes ortografias, antigas e reformadas, nos vários países da lusofonia?

As alterações ao texto do acordo ortográfico de 1990 (AO90) propostas coincidem com as que já tinham sido parcialmente antecipadas na comunicação social: a diferenciação de pára e para; pélo (de pelar), pelo e pêlo; pôr e por; recupera-se a terminação -ámos no pretérito perfeito para distinguir do presente do indicativo, -amos (ex: falámos, falamos); aceita-se a dupla acentuação em palavras como oxigénio/oxigênio ou tónico/tônico, mas com delimitação geográfica clara (uns em Portugal, outros no Brasil); retoma-se o acento circunflexo na 3.ª pessoa do plural do presente do indicativo, crêem, lêem, vêem, em lugar do creem, leem, veem imposto pelo AO90; nas sequências consonânticas recuperam-se as palavras que eram iguais em Portugal e no Brasil e que mudaram só em Portugal (concepção, recepção, etc), sugere-se a manutenção da consoante dita muda em certas palavras “para evitar arbitrariedades” (característica, por exemplo, em lugar de caraterística) e nos casos onde ela tenha “valor significativo, etimológico e diacrítico” (conectar, decepcionado, interceptar), mas sugere-se que continuem eliminadas em casos como acionar, atual, batizar, coleção, exato, projeto.

Por fim, no uso do hífen propõe-se a sua manutenção nas “expressões com valor nominal”, ou palavras compostas, como maria-vai-com-as-outras, em formas como luso-brasileiro, em vocábulos onomatopaicos (au-au, lenga-lenga), e propõe-se que se escreva pára-choques, pára-brisas ou pára-raios, mantendo-se escritas aglutinadamente palavras como mandachuva, paraquedas ou paraquedista. Há mais propostas, mas estes tópicos dão já uma ideia do que a ACL pretende sujeitar à discussão pública.

Depois deste primeiro passo, a ACL não quer deixar morrer o assunto. E além da Assembleia da República, que já manifestou vontade de ouvir o presidente da Academia, propõe-se envolver no debate também os profissionais da escrita: as três associações de escritores existentes em Portugal e os representantes dos jornalistas portugueses.

Significativamente, não se manifesta a vontade de ouvir também o que pensam sobre o assunto os professores. A experiência e a opinião de quem forma as novas gerações de leitores e escritores continuam, nesta como noutras matérias, a ser irrelevantes para quem decide.

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One thought on “Concordamos em desacordar?

  1. Para todos os efeitos, a ACL vem reconhecer que fez uma enorme burrada.
    Só lhes falta dar o passo seguinte – rasgar o acordo – fazendo um favor a todos nós.

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