O que fazer com os melhores alunos?

zarco.JPGCom o insucesso escolar e as retenções escolhidos como problema número um do nosso sistema educativo, há um grupo de alunos que tende a ficar esquecido: aqueles que aprendem com facilidade, gostam de estudar e muitas vezes se aborrecem nas aulas, não porque não percebam ou não gostem da matéria, mas devido ao ritmo lento das aulas e à abordagem minimalista de alguns conteúdos.

Perante esta realidade, a Notícias Magazine fez recentemente uma extensa reportagem sobre escolas que criaram respostas educativas diferenciadas para os melhores alunos. A maioria fá-lo no âmbito do Projecto Fénix, implantado em 120 escolas do país, e que tanto permite a criação, a partir das turmas-mãe, de «ninhos» de recuperação, para alunos em dificuldades nalgumas disciplinas, como de «ninhos» de excelência, para os miúdos que querem e podem ir mais além. A permanência nos ninhos é temporária, pelo que, recuperadas as dificuldades ou concluídas as actividades de enriquecimento, todos têm regresso assegurado à turma inicial.

Mas também há projectos, nas escolas portuguesas, baseados na constituição de raiz de turmas de bons alunos. Tomemos como exemplo a Escola Secundária João Gonçalves Zarco, de Matosinhos:

Chama-se Pós-Zarco e, no secundário, tem uma turma em cada ano com os melhores alunos – candidatam-se, as notas contam para a seleção, há uma entrevista feita por professores. Essas turmas têm mais uma hora de apoio por semana a cada disciplina de exame.

David Teixeira é um dos 25 alunos da turma do 12º ano do Pós-Zarco. Os colegas chamam-lhe «pequeno génio» e a alcunha assenta-lhe na performance escolar. Tem 16 anos e média de 19,2 no 11º ano. E um objetivo na cabeça: tirar 20 nas cinco disciplinas do 12º ano. É determinado, aluno de excelência, deverá escolher Engenharia Mecânica quando acabar o liceu. «Os alunos do secundário têm de estudar se querem ter uma boa média.» É o que faz, não em demasia, admite, porque é preciso tempo para sair e divertir-se com os amigos.

A turma de David foi escolhida a dedo, os melhores dos melhores, mas ele garante que não há competição na sala de aula. Há alunos atentos e professores que não precisam de repetir a matéria. «Os alunos estão ao mesmo nível, os professores são muito bons, e é tudo mais fácil. A pressão não é para sermos melhores do que o colega ao lado. A ideia é sermos melhores do que éramos há um mês. Não vai ser o colega da nossa turma que nos vai tirar o lugar na universidade.»

Segundo relatam professores e alunos, nestas turmas não há indisciplina, não é preciso dizer a mesma coisa várias vezes até que todos percebam, pode-se exigir mais e melhor aos alunos e estes respondem aos desafios que lhes são colocados. Mas a criação de turmas separadas será mesmo a melhor forma de aprender?

Pedro Rosário, professor na Escola de Psicologia da Universidade do Minho, percebe a vontade de alcançar sucesso rápido quando na sala de aula há diferentes perfis, «a tentação de dividir para tentar controlar melhor a situação, quer para cima quer para baixo». Mas essa divisão, acredita, pode não ser benéfica. «O ideal seria que as escolas não tivessem a tentação de fazer turmas especiais, que podem limitar a convivência e a troca de experiências entre quem tem menos e mais dificuldades. A diversidade é importante. Embora a décalage nas turmas, por vezes, seja tão grande que a partir de determinada altura a convivência parece impossível.»

Conversa de psicólogo, dirão alguns, para quem serão mais convincentes e motivadoras as palavras do director da escola em defesa de um projecto no qual se empenhou pessoalmente:

«Selecionamos os alunos não só pelas notas, mas também pelos objetivos para a vida.» E faz sentido separar? «Faz se os alunos são diferentes.» Igualdade de oportunidades é, na sua opinião, «dar a cada um o que cada um precisa». Não é usar chapa 5. «As turmas Pós-Zarco são diferentes, os alunos não têm a mania que são bons, são mesmo bons.» O diretor está satisfeito: 57% dos alunos do secundário têm média superior a 14 e 70% do básico média superior a 4. A taxa de sucesso é de 95% no ensino básico e 90% no secundário.

Pela minha parte limito-me a assinalar que na maior parte das escolas do país faltará provavelmente a massa crítica necessária para criar turmas apenas com alunos bons, pelo que a criação de «ninhos»no âmbito do Fénix ou recurso a pedagogias diferenciadas como os trabalhos de projecto poderão ser alternativas mais viáveis na maioria das escolas que queriam fazer algo diferente e especialmente direccionado aos seus alunos com melhores resultados académicos.

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One thought on “O que fazer com os melhores alunos?

  1. Que fazer com os melhores alunos? É simples: pô-los fora da escola. De facto andam a atrapalhar os outros, e, pior, a traumatizá-los e a criar-lhe complexos. Não servem para criar um bom ambiente pedagógico.

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