Os “chumbos” no exame de História

vikings.pngNão foi no exame de Matemática, nem de Biologia, nem de Física e Química, provas tradicionalmente associadas a maiores dificuldades, que os alunos do secundário tiveram mais problemas no ano passado. Olhando para os resultados nos 22 exames finais de 2015/16, foi no de História A (realizado pelos estudantes de Línguas e Humanidades) que se registou o pior desempenho, com a média a ficar nos 9,5 valores.

A jornalista do Expresso partiu à procura de explicações para os fracos resultados nos exames de História do ensino secundário realizados em 2016, e nos quais reprovaram 14% dos alunos que a eles se submeteram.

A primeira hipótese colocada não convence: o facto de os exames  abrangerem agora a matéria de todo o secundário e não apenas do 12º ano. Na verdade, isto já acontece desde 2015 e neste ano a média foi de 10,7, tendo mesmo subido em relação ao resultado médio de 2014. E apesar de serem agora avaliados conteúdos do 10º e do 11º anos, não é toda a matéria que sai no exame. De resto, esta é uma situação comum também ao Português, à Matemática e ao Desenho, as outras disciplinas trienais que têm exames obrigatórios para conclusão dos cursos científico-humanísticos.

Estaremos mais perto de perceber o que se passa se assumirmos – algo que há ainda alguma dificuldade em fazer – que a História não se estuda decorando a matéria. A disciplina envolve compreensão dos acontecimentos, capacidade de os localizar no espaço e no tempo e de os relacionar. E isto requer um esforço e uma disponibilidade mental que nem sempre os alunos conseguem ter, sobretudo na tensão que se instala, quase inevitavelmente, na aproximação da data do exame.

Outra coisa que a História requer é capacidade de interpretação e de expressão. A História faz-se a partir dos documentos, e é esse trabalho dos historiadores que os professores da disciplina procuram recriar em cada aula, levando os alunos a interrogar o passado através do estudo de diversos tipos de documentos que são as fontes da História. Ora um estudante que não domina adequadamente a língua portuguesa na dupla vertente da compreensão e da expressão escrita será sempre fortemente penalizado nos exercícios dos exames.

Há ainda um outro factor a considerar, que não é referido na notícia, e que será o número significativo de alunos que frequenta os cursos de Línguas e Humanidades sem ter o perfil adequado para o fazer. Fugir à Matemática ou à Física, consideradas disciplinas demasiado difíceis e exigentes, sem ir parar aos cursos profissionais, que muitos tendem ainda a achar desprestigiantes, leva um número significativo de jovens a procurar uma alternativa que julgam mais fácil num curso onde a História substitui a Matemática como principal disciplina de formação específica. Mas a História do secundário não é uma disciplina fácil, sobretudo para quem não sente alguma vocação ou gosto no seu estudo. Assim como haverá situações opostas, de alunos que se vão arrastando nas Ciências e Tecnologias quando estariam melhor nas Humanidades, apenas porque entendem que nesta área não existe empregabilidade.

Finalmente, o mito da objectividade e do rigor dos exames e das médias e séries estatísticas que se vão fazendo a partir dos seus resultados. A verdade é que não há, para o grau de aprendizagens complexas que se avalia no final do secundário, dois exames com o mesmo exacto grau de dificuldade. E estas oscilações de algumas décimas, de ano para ano, reflectem mais a ligeira variação na dificuldade de uma prova para outra do que a maior ou menor preparação do universo de milhares de alunos que as realiza.

Estamos afinal a sobrevalorizar os exames, pedindo-lhes o que eles não nos podem dar. Como também acaba por se concluir, citando a Associação de Professores de História, no final da notícia:

A atual direção da APH lembra, no entanto, que um desempenho mais baixo pode dever-se a alguma “desorientação” numa ou duas perguntas, “muitas vezes provocada pelo stress do momento”. Além disso, acrescenta, os exames não “conseguem abranger tudo o que os alunos aprenderam em três anos letivos”, havendo até o risco de se estar a dar “demasiada importância a classificações e rankings”, em detrimento do “mais importante”, como todas as outras tarefas que ajudam ao “desenvolvimento do raciocínio”.

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