Medicar ou tratar a hiperactividade?

É um tema já recorrente de discussão o elevado número de crianças e jovens a quem é diagnosticada uma Perturbação de Hiperactividade com Défice de Atenção (PHDA) e que, em consequência, são medicados com ritalina ou fármacos semelhantes para ficarem mais calmos e concentrados nas aulas.

Segundo o Correio da Manhã, são cerca de 7200 os novos casos anualmente referenciados no nosso país, um número provavelmente excessivo, e em que a PHDA poderá estar a ser sobretudo um sintoma de algo mais grave que esteja a afectar o bem-estar físico e psíquico do menor. E não sou eu que o digo, é Pedro Cabral, o neurologista pediátrico que escreveu ontem no Público sobre a hiperactividade, que o defende abertamente:

Uma criança que não pára quieta na sala de aula pode ter tudo e não ter nada. Se se mexe mais do que o esperado para a sua idade, pode ser que nunca tenha tido ninguém que lhe chamasse a atenção, pode sentir que não consegue acompanhar os conteúdos, pode estar preocupada com questões mais urgentes para ela, reais ou imaginadas (ser vítima de bullying no recreio, reconhecer risco de doença ou de separação dos pais, por exemplo). Ou pode simplesmente estar distraída, “ausente”, mas sossegada… A importância dos factores genéticos veio claramente a ser reconhecida. Portanto, num contexto de predisposição “hereditária”, que por si só pode perfeitamente não constituir um entrave ao aproveitamento/comportamento académico, um imenso conjunto de circunstâncias, em casa e na escola, pode fazer “emergir” o comportamento desatento, irrequieto, com o seu cortejo de consequências…

Receitar medicamentos às crianças logo que os problemas escolares se manifestam pode ser a forma fácil de controlar a situação – mais calma e atenta, a criança consegue melhorar o comportamento e os resultados escolares – mas não a resolve quando ela é um sintoma de outro tipo de perturbação que deveria ser percebida e adequadamente tratada.

Nos tempos que correm, a intuição diz-nos que uma grande parte daquilo a que se associa a hiperactividade é na verdade um crescimento sem regras nem limites que se vai proporcionando aos meninos e meninas no ambiente familiar. Habituados a ser o centro das atenções – muitos miúdos são simultaneamente o filho, o sobrinho e o neto único da família – crescem rodeados de familiares dispostos a fazer todas as vontades e a adaptar os ritmos da vida familiar às vontades do rebento, em vez de lhes irem ensinando as regras básicas de vida em sociedade que depois lhes irão ser úteis e necessárias na escola.

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Consumo per capita de metilfenidato (ritalina e drogas semelhantes)

Que a hiperactividade é em grande medida uma construção social e cultural das diferentes sociedades, comprova-o o facto de haver uma enorme variação no número de casos diagnosticados e medicados de país para país, como o gráfico demonstra. Se fosse, na maioria dos casos, uma verdadeira doença mental, a distribuição das ocorrências seria bem mais homogénea.

Talvez importe, assim, evitar olhares simplistas sobre a PHDA e analisar, caso a caso, o que revelam e o que escondem, em cada aluno, as manifestações de hiperactividade, desconcentração ou, às vezes, pura e simples falta de educação e do saber-estar básico e necessário à vida em sociedade. É necessário distinguir os problemas de ansiedade, depressão ou falta de auto-estima, os problemas familiares, as eventuais situações de bullying que poderão estar também a provocar os comportamentos desajustados.

E por último refira-se que há muitos hiperactivos que sempre o foram mas nunca foram diagnosticados e tratados e assim continuaram pela vida fora. São aqueles alunos irrequietos que todos os professores já tiveram mas que apesar das distracções conseguem “apanhar” e compreender as matérias, e com o tempo, e às vezes alguns castigos disciplinares, lá vão aprendendo a auto-controlar-se. Porque o maior problema, e aqui também os especialistas convergem, não é a hiperactividade, mas sim o défice de atenção que lhe está associado e que a maioria dos verdadeiros hiperactivos não consegue, sem ajuda, ultrapassar.

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