O logro da competitividade

donkey-cooperation.jpgInterrogado sobre a possibilidade de o Reino Unido se tornar um paraíso fiscal na Europa, [o ministro da Economia Philip] Hammond preveniu que se o seu país “não tiver acesso algum ao mercado europeu”, poderia “mudar o modelo económico” para “ganhar competitividade”.

Em nome da competitividade, a nova ordem neoliberal diz-nos que os países devem reduzir os impostos sobre as empresas para atrair e fixar investimento, que os trabalhadores devem aceitar trabalhar mais e ganhar menos para conseguir e conservar o emprego, que as empresas devem reduzir os encargos com a mão-de-obra, subcontratando serviços e recorrendo às máquinas e aos computadores para realizar todas as tarefas em que estes possam substituir o trabalho humano.

Ser competitivo faz parte da natureza humana, e todas as correntes do liberalismo económico se baseiam na ideia de que é entrando em competição com os outros que melhor desenvolvemos a nossa capacidade de criar a riqueza que nos permitirá melhorar a nossa vida e da qual, indirectamente, a sociedade acabará também por usufruir.

A competição é útil porque induz a fazer melhor do que os concorrentes: sendo mais eficaz, inventando novas técnicas ou processos produtivos, organizando melhor o trabalho. E quando se é bem sucedido os outros tentam replicar o nosso êxito, e fazer ainda melhor. Este processo foi fundamental para o desenvolvimento das forças produtivas, desde os primórdios da industrialização até ao nascimento da sociedade de consumo. Quando a humanidade era menos numerosa, vastas extensões do mundo estavam por povoar e os recursos naturais pareciam inesgotáveis, uma economia assente na livre iniciativa parecia o melhor dos sistemas para promover a prosperidade individual e colectiva.

Mas o mundo em que hoje vivemos é muito diferente. Desde logo porque somos muitos, a população continua a aumentar e os recursos tendem a escassear. Competir, hoje, é cada vez mais lutar com os outros para conseguir uma fatia maior do bolo que, apesar de nunca ter sido tão grande, deixou de chegar para todos. A competição leva-nos a um beco sem saída: quando a maioria dos estados tiverem deixado de tributar as empresas para evitar a sua fuga, os computadores e os robôs deixarem sem trabalho a maior parte da população e a riqueza estiver ainda mais concentrada do que hoje naquele 1% da população mundial cuja fortuna já hoje é equivalente à dos restantes 99%, competimos como, e com quem?

Continuamos a ser intoxicados pelo apelo constante a que todos sejamos competitivos: pessoas, empresas, países. E, no entanto, nunca a humanidade precisou menos de competitividade do que nos tempos que correm. O que precisamos é de ser capazes de cooperar mais e de competir menos.

Sem eliminar a competição, é necessário impor-lhe regras e limites que a tornem justa e socialmente útil. Construir uma política à escala mundial em torno da exploração equilibrada dos recursos naturais e da preservação do ambiente, em vez de se continuar a alimentar uma globalização predadora. E restabelecer o primado da democracia política sobre os mercados e as oligarquias financeiras, controlando os movimentos financeiros e impondo a redistribuição da riqueza em vez de promover a sua concentração.

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