Exames com poetas vivos

sara-holbrook.JPGFazer análise literária procurando descobrir os mais profundos e íntimos pensamentos e motivações dos autores pode ser um exercício fascinante para os professores e outros estudiosos da literatura, e até para os estudantes mais motivados.

É, contudo, um exercício que tem os seus limites. E estes são, por vezes, em contexto pedagógico, ultrapassados. Quando isto sucede, os efeitos podem ser contraproducentes: muitos alunos, direi mesmo a maioria, deixam de apreciar a leitura da obra e e de ter prazer em ler para se dedicarem a decifrar uma espécie de charadas acerca da mundividência ou das idiossincrasias do autor. E que dizer quando a perplexidade surge, não só dos estudantes que tentam decifrar as intenções ocultas do escritor, mas da própria poetisa que escreveu os poemas que saem nos exames?

Sara Holbrook é professora e autora. Em 1998, lançou um livro de poesia. Mais de uma década depois, descobriu que dois dos seus poemas têm sido utilizados em exames do ensino básico, no estado norte-americano do Texas. O caricato é que quando a escritora tentou responder às questões sobre os seus trabalhos, não acertou.

O sistema educativo estadunidense vive obcecado pelos constantes exames e pelo mito da objectividade e do rigor avaliativo. Tivemos entre nós, aliás, um ministro da Educação que por lá fez parte da sua carreira académica e absorveu essa cultura examocrata cujos efeitos perniciosos e contraproducentes também entre nós se puderam constatar.

A maneira mais comum de elaborar exames com perguntas supostamente objectivas e ao mesmo tempo fáceis de corrigir é usar e abusar das questões de escolha múltipla, uma vez a resposta certa já lá está, tem apenas de ser assinalada. E para classificar ainda é mais fácil, certo ou errado, não há lugar a interpretações subjectivas. Só que este tipo de perguntas tem algumas limitações, que no caso da análise de textos literários com alguma complexidade são mais do que evidentes.

Perguntas como “porque é que o autor fez uma pausa” em determinado local ou “porque utilizou maiúsculas naquele verso” e muitas outras, são para Sara Holbrook um absurdo. “O que é que isto mostra da capacidade de leitura de um miúdo?”, questiona. Estas são perguntas válidas, no entender da escritora, única e exclusivamente em discussões e não em testes de escolha múltipla.

Claro que tudo isto se torna mais fácil quando as perguntas giram em torno de poetas mortos, autores que já não se encontram entre nós para confirmar se os seus pensamentos e intenções eram realmente aqueles que os estudiosos da sua obra lhes atribuem. No caso dos poetas vivos, como Sara Holbrook, tudo se torna mais complicado:

Qualquer teste que questione as motivações do autor sem lhe ter perguntado primeiro, é um disparate. Quem constrói os testes faz isto sobretudo com autores que estão mortos e não podem protestar. Mas eu não estou morta. Eu protesto!

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One thought on “Exames com poetas vivos

  1. “Fazer análise literária procurando descobrir os mais profundos e íntimos pensamentos e motivações dos autores pode ser um exercício fascinante para os professores e outros estudiosos da literatura, e até para os estudantes mais motivados.”

    De acordo.
    Exagera-se na objectivação da expressão artística e, ao fazer-se isto assim, perde-se o gosto da sua fruição, testando-se e classificando-se as motivações e íntimos pensamentos dos autores, sob a batuta de perguntas, por vezes, muito ridículas. Quem sair fora “dos critérios de avaliação” fica de fora.

    Por outro lado, e lembrando a Obra Aberta de Umberto Eco, a arte tem essa característica, a de sair das mãos dos seus autores e passar a ser pensada pelos que a fruem. Porque é que a autora fez uma pausa? Provavelmente a autora não saberá responder. Mas nós, que a lemos, poderemos saber.

    Concluindo, o melhor é mesmo deixar análises mais profundas para estudiosos, deixando o menos subjectivo fora de testagens e classificações a jovens alunos que, como a autora referiu, não têm a ver com a capacidade de leitura desses jovens.

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