Mário Soares (1924-2017)

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Lutador antifascista, fundador e primeiro líder do PS, primeiro-ministro de vários governos constitucionais, Presidente da República, eurodeputado: eis o essencial do percurso, telegraficamente resumido, de um homem cuja trajectória política acompanha e se confunde com as vicissitudes e contradições da conquista e da consolidação da democracia em Portugal.

De líder oposicionista em 1974, passou a ministro dos governos provisórios após a Revolução de Abril, e o seu protagonismo no processo de descolonização trouxe-lhe, até final dos seus dias, o ressentimento e o ódio de muitos retornados, que nunca aceitaram, muito menos tentaram compreender, a inevitabilidade histórica do fim do colonialismo e o desabar do mundo colonial quase perfeito em que viviam.

A 25 de Novembro esteve ao lado da contra-revolução, lutando pela consolidação da democracia constitucional e liderando, depois da vitória eleitoral, o primeiro governo saído das eleições de 1976, à frente do qual haveria de pôr, como admitiu, o socialismo na gaveta.

Ao longo da longa carreira política haveria de prestar relevantes serviços ao país, o mais importante dos quais talvez seja a negociação da entrada de Portugal na então CEE, recuperando a vocação europeia de um país órfão da vocação colonial e fazendo da integração na “Europa connosco” um novo desígnio nacional.

Mas também permitiu que muitos, à sua volta, se servissem do poder e das suas benesses, nunca tendo mostrado grande empenho no combate à corrupção. Nem muita atenção à realidade dos números, preferindo decidir com base na sua proverbial intuição política e entregar a gestão dos dossiers a economistas e tecnocratas da sua confiança. Legou-nos uma fundação que pretende imortalizar o seu nome mas que nunca foi devidamente dotada de património, tendo sobrevivido através de subsídios de diversas entidades públicas.

Combatente político quase até ao fim, envolveu-se nos últimos anos em lutas inúteis, como quando se opôs a Manuel Alegre nas Presidenciais de 2005, conseguindo apenas facilitar a vida a Cavaco Silva, que derrotou os dois socialistas desavindos. Ou quando resolveu iniciar uma carreira de eurodeputado com o objectivo de chegar à presidência do Parlamento Europeu, acabando humilhado pela simples aritmética dos votos que deu ao Partido Popular Europeu a última palavra nessa eleição.

Retirado da vida política activa, continuou a intervir, escrevendo nos jornais e marcando presença pública sempre que sentia o dever de o fazer, sobretudo no apoio aos amigos e à família socialista. C0mo ainda recentemente se viu, no apoio solidário a um Sócrates caído em desgraça e perseguido pela justiça.

Ficará seguramente como uma das personagens fundamentais da História política portuguesa da segunda metade do século XX.

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