Ódio a Soares

C1AkehJWEAAt02n.jpgEnquanto a comunicação social vai dando os últimos retoques nos obituários de Mário Soares, José Luiz Sarmento Ferreira escreve, no Aventar, sobre o ódio que uma parte significativa da sociedade portuguesa parece sentir em relação a uma personalidade que, com as suas inevitáveis qualidades e defeitos, convicções e contradições, marcou de forma decisiva a construção da democracia portuguesa.

Não sou, nunca fui, um fã de Mário Soares, da sua acção e opções políticas, da sua arrogância e displicência ou de grande parte da gente bajuladora e oportunista de que se rodeou. Mas também não encontro, numa análise racional da História portuguesa das últimas cinco décadas, motivos que justifiquem esse ódio visceral a Soares que por aí vai lavrando.

Foi indiscutivelmente um democrata e um patriota, que assumiu responsabilidades e fez escolhas difíceis que, vistas à distância, são perfeitamente lógicas e compreensíveis, tanto à luz das circunstâncias como das convicções de Mário Soares e dos que o apoiavam. O ódio a Soares  releva por isso da pura irracionalidade e centra-se em três tipos de motivações que JL Sarmento identificou:

Em primeiro lugar, os retornados de África. Muitos deles acreditarão até à morte, ou para além dela se deixarem escola, que Mário Soares foi um traidor à Pátria, ao serviço do comunismo internacional, que vendeu as colónias – que eram viáveis, de acordo com a lenda – e os expulsou do Paraíso. Estes nunca duvidarão, nem por um segundo, que Soares pisou a bandeira e fez todas as outras malfeitorias que lhe atribuem. […]

Há outro grupo, ainda numeroso, que odeia Soares pela razão diametralmente oposta: quando a Revolução Comunista pareceu estar ali ao virar da esquina, ele travou-a. Com a cumplicidade de Carlucci. E de Kissinger. Não pisou a bandeira portuguesa, desfraldou a americana. Em nome da democracia? Da democracia burguesa, isso sim. E esta não conta como democracia, como sabe toda a gente que tenha consciência de classe. […]

Mas o mais desolador é a existência de um terceiro grupo, não sei até que ponto numeroso, que não lhe perdoa exactamente isto. Sim, isto: a democracia. Não por ser burguesa, nem por ser imperfeita, mas só por ser democracia. Veremos em breve quantos são, somados aos outros. Se saírem à rua.

 

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