Heterodoxias: Byung-Chul Han – A coacção digital

byung-chul-han.JPGHoje, encontramo-nos livres das máquinas da era industrial, que nos escravizavam e exploravam, mas os aparelhos digitais trazem com eles uma nova coação, uma nova escravatura. Exploram-nos em termos mais eficazes, porque, dada a mobilidade, transformam qualquer lugar num posto de trabalho e fazem de todo o tempo um tempo de trabalho. A liberdade da mobilidade paga-se por meio da coação fatal de termos de trabalhar em toda a parte. Na era das máquinas, o trabalho distinguia-se do não-trabalho pela imobilidade das máquinas. O local de trabalho, até ao qual tínhamos de nos deslocar, podia separar-se com facilidade dos espaços de não-trabalho. Na actualidade, em grande número de profissões, essa delimitação foi suprimida. O aparelho digital torna móvel o próprio trabalho. Cada um de nós leva consigo de um lado para o outro o posto de trabalho numa espécie de regime de campanha. Já não é possível escaparmos ao trabalho.

Os smartphones, que prometem mais liberdade, exercem sobre nós uma coação fatal – isto é, a coação de comunicar. Entretanto, a nossa relação com o aparelho digital torna-se quase obsessiva, compulsiva. Também aqui, a liberdade se transforma em coação. As redes sociais reforçam maciçamente esta coação da comunicação, que, em última instância resulta da lógica do capital. Mais comunicação significa mais capital. A circulação acelerada da comunicação e da informação conduz a uma aceleração da circulação do capital.

A palavra “digital” refere-se ao dedo, cuja função principal é contar. A cultura digital assenta nos dedos que contam. A história, em contrapartida, narra. Conta, narrando e não fazendo contas. O contar digital é uma categoria pós-histórica. Nem os tweets nem as informações se contam de modo a dar lugar a uma narrativa. Igualmente, a timeline (linha do tempo) não conta uma história de vida, uma biografia. Conta em termos aditivos e não narrativos. O homem digital digita no sentido de contar números e calcular constantemente. O digital absolutiza o número e o calcular. Também os amigos do Facebook são, sobretudo, numericamente contados. A amizade, pelo contrário, é uma narrativa. A era digital totaliza o aditivo, o calcular e o enumerar. As nossas próprias preferências são calculadas pela contagem do número de “Gostos”. A narrativa perde grande parte da sua importância. Tudo se torna hoje enumerável, a fim de ser possível contá-lo na linguagem do rendimento e da eficácia. Por isso, hoje, tudo o que não se pode contar numericamente deixa de ser.

Byung-Chul Han, No enxame – reflexões sobre o digital (2013).

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