Ministério das Obras (mal) Feitas

foto_carcavelos-620x360[1]Não há memória de um alerta destes, numa escola com quase 1900 alunos. Em Carcavelos, a Escola Básica e Secundária, que é uma das maiores do país, poderá não abrir para o segundo período, conta o jornal i.

O diretor da escola, Adelino Calado, assume a decisão por falhas graves de segurança, por exemplo na eletricidade e no ar condicionado, e uma fatura milionária da Parque Escolar, a empresa criada para renovar as escolas de todo o país.

A notícia é de ontem, e hoje percebe-se que os problemas com a escola de Carcavelos não são caso isolado.

Depois de o conselho geral da Básica e Secundária de Carcavelos ter decidido não reabrir portas no segundo período, a menos que seja resolvido o problema de falta de segurança “aguda” do estabelecimento, Filinto Lima, presidente da Associação Nacional de Diretores de Agrupamentos e Escolas Públicas, confirmou ao DN que as queixas em relação à forma como têm sido geridos estes equipamentos não se resumem a casos pontuais.

“Nas escolas que tiveram este tipo de intervenção, tenho diretores que se queixam – é mais ou menos generalizado – ou que as obras ficaram mal feitas, ou que as manutenções, como é o caso da secundária de Carcavelos, ou não são feitas ou são feitas tardiamente”, denunciou.

“A escola, com dois mil alunos, está numa situação em que não pode funcionar sem ter alguma manutenção”, disse ontem ao DN o diretora Secundária de Carcavelos, Adelino Calado, explicando que os problemas pontuais que se iam verificando desde a intervenção na escola, em 2012, se agravaram “a partir de fevereiro deste ano, a partir do momento em que o técnico que estava cá destacado pela Parque Escolar se foi embora”.

A decisão de requalificar escolas secundárias com base em projectos megalómanos e despesistas foi tomada no tempo de Sócrates e Maria de Lurdes Rodrigues e é um bom exemplo de como, para resolver um problema concreto – a degradação física e a falta de algumas infraestruturas e equipamentos em muitos edifícios escolares – se encontrou uma solução que, globalmente, temos de considerar péssima.

Claro que na altura quase toda a gente achou muito bem que nas escolas começasse a surgir o conforto e até o luxo que até então se via normalmente apenas nas instalações de bancos e grandes empresas e serviços públicos. Sobretudo tratando-se da sua escola, quase ninguém reparou que se apostava, quase sempre, em sistemas centralizados de aquecimento, refrigeração, distribuição de energia ou de rede informática que, além de aumentarem bastante a factura energética necessitam, para funcionarem correctamente, de manutenção permanente e especializada.

Desprezou-se a eficiência energética, o aproveitamento da luz solar, os sistemas simples e eficazes que se usam na generalidade das escolas e que podem ser mantidos em funcionamento pelos seus próprios assistentes operacionais. Reconstruíram-se escolas como se fossem laboratórios ou hospitais, quando num país como o nosso, em que não há aulas nos meses de Verão, a forma mais simples e eficaz de arejar uma sala se resume, quase sempre, a abrir uma janela. E isso também deve ser ensinado aos alunos.

Do despesismo desvairado que caracterizou o socratismo, ainda hoje com demasiados admiradores, ficou uma pesada herança que hoje nos penaliza duplamente: por um lado, gastou-se num punhado de escolas dinheiro que, se tivesse sido bem gerido, daria para requalificar o dobro ou o triplo dos estabelecimentos de ensino. E por outro, ficou a Parque Escolar, um elefante branco do socratismo onde se colocou a gigantesca dívida contraída para fazer as obras e cujos encargos absorvem hoje praticamente todo o orçamento disponível para as construções escolares. Sendo que esta empresa pública, que deveria requalificar todas as escolas secundárias do país, não tem sequer dinheiro para assegurar a manutenção daquelas em que já interveio e cuja propriedade nominalmente lhe pertence.

No resto, o que as notícias sobre a escola de Carcavelos nos mostram é a persistência da velha maneira portuguesa de gerir a educação pública: só perante ameaças de encerramento, com a visibilidade pública e o alarme social que isso acarreta, é que as entidades responsáveis se capacitam de que não podem adiar e ignorar os problemas, numa constante fuga às suas responsabilidades.

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