Arjun Appadurai

appadurai.JPGInteressantíssima a entrevista do Público a Arjun Appadurai, um antropólogo cultural de origem indiana há longos anos radicado nos EUA, onde é professor na Universidade de Nova Iorque. Aqui se fala das presidenciais americanas e da América profunda, de globalização e internet, de política e de economia, dos avanços e recuos da globalização.

Apenas alguns excertos, e o convite para ler o texto integral

Durante a Presidência de Obama, houve um grupo de pessoas que odiava o facto de ter um negro à frente deste país. Era o maior símbolo de que tinham perdido alguma coisa — a Presidência e a Casa Branca, onde agora estava um negro a dizer-nos o que fazer. A muitos níveis é, claro, uma história de ressentimento racial, mas, repito, acho que o que Trump conseguiu fazer foi ligar a mensagem sobre a América e o mundo com a mensagem sobre os brancos na América. E as duas tornaram-se uma: vamos tomar conta disto outra vez, e a América vai tomar conta do mundo outra vez.

Há nos EUA uma longa história de medo de alguém que soe como um socialista. Não é como na Europa, em que o socialismo não é uma dirty word, podem não gostar mas está lá, faz parte do espectro. Nos EUA, está demasiado próxima do comunismo. Sanders fez um trabalho magnífico ao tornar a mensagem socialista séria e respeitada. Mostrou que se pode criar um movimento sem se ser um demagogo, falando apenas a verdade. Mas foi uma oportunidade perdida.

Aquilo que nos falta, como modelos históricos, são pessoas como Martin Luther King, Gandhi, Mandela. Eram todos pela justiça, falavam a verdade e eram incrivelmente carismáticos. Há um défice desse tipo de políticos. E mesmo quando surgem figuras mais liberais, como [a chanceler alemã, Angela] Merkel, que neste momento se destaca na Europa, ela é menos colorida, é uma funcionária política que está a fazer um bom trabalho em circunstâncias difíceis, mas está longe de um Gandhi ou de um Mandela.

No caso de Trump, ele foi muito esperto porque juntou as duas mensagens, a xenofobia e o desejo de controlar a economia. No fundo, a mensagem económica dele é muito simples: deixem os ricos ser ricos e alguma coisa sobrará para vocês. Ele não é um capitalista de alto nível, é um homem de negócios e o que diz é “faço negócios, esses negócios dão dinheiro e algum desse dinheiro chegará aos que estão mais abaixo”. […] de alguma forma, conseguiu convencer os americanos com uma mensagem de pura xenofobia cultural: “Deixem-me fazer isto e todos vocês terão empregos.”

No caso dos EUA, houve sempre um fascínio pelos homens ricos e de sucesso. Porquê? Porque podemos todos tornar-nos como eles. Reduzam a regulação e podemos todos ser Donald Trump. Esta é, claro, uma fantasia ridícula que tem sido fatal para a tentativa de organizar a esquerda. Não há para onde ir porque toda a gente pode ser Trump. Todos os miúdos negros acham que podem ser Michael Jordan. É a terra das oportunidades de uma forma extrema e totalmente individualista. Isto significa que uma pessoa como Trump se torna mensageiro não da exploração capitalista, mas da ideia de puro sucesso.

A economia já não se baseia na manufactura e na indústria, nos bens e serviços, mas na troca de instrumentos financeiros. É todo um novo mundo que não está assente na lógica de oferta e procura, que era a base da economia. Se o que estamos a vender são produtos que têm como base a dívida dos consumidores, não há limite. Não há escassez. Pode-se sempre continuar a ter mais. […] A dívida é o nosso principal trabalho hoje. Fazemos dívida para que outros possam monetarizar sobre ela. Enquanto isso não for entendido, torna-se mais fácil as pessoas pensarem que estão excluídas e esmagadas economicamente e transformar esse sentimento em hipernacionalismo, racismo, etc.

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