Dez objecções contra os rankings escolares

ranking.gif1. RANKINGS PARA TODOS OS GOSTOS. Para começar, não há apenas um ranking, mas vários. O ME forneceu à comunicação social dados estatísticos em bruto que um tratou à sua maneira. E se nuns é a Academia de Sta. Cecília que aparece à frente, outros atribuem o primeiro lugar ao Colégio de Nossa Senhora do Rosário. Alguns afirmam que a Filipa de Lencastre é a melhor secundária pública, enquanto outros garantem que o galardão continua a pertencer à Infanta D. Maria.

2. OS PEQUENOS FICAM DE FORA. A fiabilidade da análise estatística diminui drasticamente com grupos reduzidos de indivíduos, e por isso as escolas com poucos alunos têm muitas vezes um comportamento errático: basta num ano aparecerem meia dúzia de bons alunos para elevar os resultados ao topo do ranking; no ano seguinte, com alunos menos brilhantes, a classificação pode descer centenas de lugares. Por este motivo, algumas listagens ignoram as escolas com poucos exames realizados.

3. OS EXAMES NÃO SÃO TUDO. Educar é também formar bons cidadãos, conscientes dos seus direitos e deveres. Desenvolver competências sociais que tornem os jovens sociáveis, solidários, interventivos e cooperantes. Promover a prática desportiva e hábitos de vida saudável. E muitas coisas mais. Tudo isto é impossível de avaliar em dois exames que se fazem no final do 9º, do 11º e do 12º ano.

4. AS NOTAS SÃO DOS ALUNOS, NÃO DAS ESCOLAS. Os rankings nada mais são do que médias de resultados obtidos pelos alunos de cada escola nos exames nacionais: bons alunos fazem a sua escola subir na lista. Claro que, quando uma escola aparece no topo atrai bons alunos estes contribuem, no seu próprio interesse, para que a escola aí se mantenha.

5. AS NOTAS DOS EXAMES SÃO MAIS BAIXAS. E é natural que sejam, uma vez que as classificações internas valorizam outros parâmetros de avaliação que nos exames não são nem podem ser considerados, como o trabalho prático ou experimental nas aulas e o domínio das atitudes e valores. Os alunos com menor desempenho a nível cognitivo podem aqui mostrar o seu mérito, e as escolas devem valorizar os seus progressos.

6. IMPRENSA COM FALTA DE ASSUNTO. Os rankings prestam-se a uma discussão fácil e demagógica, que é transversal aos diversos estratos culturais e sociais. Desde a leitura superficial de quem quer apenas saber como ficou a escola onde estudou ou onde tem ou pretende colocar os filhos, até à abordagem mais “científica”  de quem se debruça sobre as tabelas e as grelhas de excel em busca do algoritmo do sucesso, todos se podem entreter à sua maneira com um tema que, durante dois ou três dias, irá ocupar as páginas e os ecrãs dos media.

7. É A ECONOMIA, ESTÚPIDO! O ensino privado é na maioria dos casos um negócio com fins lucrativos. A publicitação anual dos rankings das escolas significa publicidade gratuita para algumas escolas privadas que vêem desta forma crescer a procura, aumentando os lucros do negócio e reforçando o elitismo da sua população escolar.

8. APROFUNDAR AS ASSIMETRIAS. A construção de um ranking é sempre um processo selectivo, onde uns ganham o que outros perdem: por muito que se faça, alguém terá forçosamente que acabar nos últimos lugares. Em vez de uma avaliação externa que incentive a a melhoria de todos, temos um sistema que cava as diferenças entre escolas “boas” e “más”, sendo aquelas, quase sempre, privadas e estas, geralmente, públicas.

9. COMPARAR O QUE NÃO É COMPARÁVEL. Escolas que recebem toda a gente, e outras que barram a entrada a quem não tem dinheiro para pagar caras mensalidades. Famílias com pais cultos e instruídos, que habituaram os filhos desde pequenos a ler, a argumentar, a viajar, versus famílias carenciadas ou desestruturadas e pais com escassas habilitações escolares e sem hábitos de fruição cultural. Mesmo os dados de contexto que têm sido divulgados são uma ferramenta muito limitada, não só por deixarem de lado muitos factores condicionantes do sucesso escolar mas também por só se aplicarem às escolas públicas. A transparência saudada por alguns defensores do ensino privado só se aplica, afinal, à escola pública: para os outros, o segredo continua a ser a alma do negócio.

10. O VERDADEIRO RANKING ALTERNATIVO. É possível, e passa por dar informação às escolas e às comunidades escolares sobre os resultados dos seus alunos comparando-os com as médias regionais e nacionais. Os efeitos perniciosos das actuais listas poderiam ser eliminados, não pela sua abolição, mas por produzir e devolver a cada escola a informação que, sendo útil para os interessados, não encorajasse uma abordagem superficial, demagógica e em muitos casos desmoralizadora, sobretudo para as escolas do fundo da tabela.

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