Excesso de habilitações

faxineira.JPGPercebo que se queira aumentar a escolarização dos jovens portugueses, garantindo que todos cumprem a escolaridade obrigatória e que o maior número possível possa completar os seus estudos no ensino superior, de forma a que o país disponha da maior número de quadros qualificados e os jovens realizem as suas legítimas ambições profissionais.  Mas a verdade é que as estatísticas vêm consistentemente apontando um problema sério: a economia não se desenvolve ao mesmo ritmo a que o sistema educativo produz novos licenciados, mestres e doutores, e o resultado é que as pessoas acabam muitas vezes a trabalhar em áreas que não correspondem à sua formação académica ou a realizar tarefas para as quais não precisavam de tantas habilitações. A alternativa, para muitos dos que querem mesmo trabalhar naquilo para que se prepararam e sentem vocacionados é, como bem sabemos, a emigração.

Entre os jovens empregados, mais de metade considera ter as qualificações escolares adequadas para as funções que ocupa no seu trabalho, mas há ainda uma grande franja – um terço – que diz existir algum desajustamento por ter qualificações superiores às necessárias, estima o Instituto Nacional de Estatística (INE) num estudo publicado nesta sexta-feira.

Este excesso de habilitações afecta sobretudo os mais jovens, o que confere com a ideia generalizada de que se trata de um fenómeno relativamente recente: tradicionalmente, os engenheiros, advogados, engenheiros, arquitectos, professores e outros profissionais com formação superior encontravam colocação com relativa facilidade logo que acabavam os cursos, e muitas vezes o seu reduzido número nem chegava para suprir a procura existente.

Não havendo uma estratégia para o crescimento e o desenvolvimento económico que passe pela aposta em sectores estratégicos capazes de criar emprego qualificado, não fará sentido continuar a apostar no aumento da oferta de cursos e de vagas no ensino superior. Andamos apenas a frustrar as expectativas de tantos jovens, preparando-os para profissões que nunca irão exercer, ao mesmo tempo que fornecemos a países mais ricos, a custo zero, os profissionais especializados que eles se dispensam de formar. Além do esbanjamento de dinheiro isto representa, acima de tudo, um desperdício de capital humano, o mais valioso dos nossos recursos e o que, desta forma, menos estamos a aproveitar.

 

Anúncios

Comentar

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s