O regresso do marranço

estudar_e_esquecerNuma reacção até certo ponto natural contra a arbitrariedade e a subjectividade na avaliação de alunos, foi-se impondo no ensino português, sobretudo nos anos de escolaridade mais avançados, a ideia de que as pessoas, antes de serem avaliadas, têm o direito de saber o que se espera delas. Ou seja, quais as matérias que precisam de saber, as competências que devem ser capazes de demonstrar e de que forma concreta – tipo de exercícios, data e duração das provas, etc. – irão ser postas à prova.

O problema é que esta avaliação com dia e hora marcada que culmina no secundário, na maioria das disciplinas, num exame nacional, tem vindo a pouco e pouco a erodir o conceito de avaliação contínua no qual têm vindo a ser formadas sucessivas gerações de professores. E o qual toda a gente, pelo menos em teoria, continua a defender.

Na prática, sobrevalorizam-se os testes de avaliação, ao ponto de haver, nalguns conselhos de turma, verdadeiras corridas às melhores datas para a sua marcação. Impõem-se limites: mais do que um teste por dia, nem pensar. Mais de três numa semana, sobrecarregam os alunos. Sim, porque estudar, que deveria ser uma actividade quotidiana daqueles que, por alguma razão, se chamam estudantes, passou a ser sobretudo uma preparação para os testes de avaliação. E é complicado tentarmos ensinar aos nossos alunos que não se deve deixar o estudo para a véspera das avaliações se o todo o nosso cuidado vai, depois, para garantir que todo o teste terá a sua “véspera” livre para… estudar.

Mas o mais preocupante nisto tudo é o regresso, ou a persistência, da velha prática de estudar, não para aprender, mas para se ser bem avaliado. As matérias tal e tal não saem no teste? Então não se estudam, não interessam, mesmo que até possam ter interesse. E, sobretudo, tenta-se cada vez mais reduzir o estudo a coisas que se possam memorizar e, literalmente, despejar.

Noto hoje, bem mais do que há uns anos atrás, como por vezes até bons alunos resistem a procurar perceber o que aprendem. Porque é mais simples decorar, apenas. O ensino formatado em metas curriculares introduzido por Nuno Crato foi, por sua vez, um poderoso incentivo aos professores para entrarem também neste esquema facilitista do aprender-decorar-despejar. E em seguida esquecer a maior parte do que se aprendeu, pois é preciso libertar espaço no “disco rígido” para uma nova fornada de matéria.

Anúncios

4 thoughts on “O regresso do marranço

  1. algumas ideias que a experiência foi dando:

    – agendar momentos de fichas, testes, apresentação de trabalhos depois de a maioria das outras áreas disciplinares terem marcado;
    – pedir a colaboração dos alunos para datas diversas, chegando-se a um acordo;
    – diversificar instrumentos de avaliação, dando primazia a testagens de conhecimentos parciais (e aqui ainda há muitos professores que conseguem marcar os “testes” para todo o ano lectivo, 2 por período, de Setembro a Junho…!!!!)

    Prós:
    – reforça-se a participação dos alunos;
    – os professores corrigem estes instrumentos de avaliação mais rapidamente;
    – a probabilidade de os alunos terem tempo para se prepararem é maior;
    – há mais momentos de avaliação formativa e de diagnóstico de dificuldades;
    – em casa, os professores corrigem menos, o que é bastante compensador a todos os níveis.

    Gostar

    • Pois, a avaliação deveria ser isso tudo, e assim é que faz sentido uma avaliação contínua.
      Claro que com turmas grandes e muitas turmas por professor, torna-se complicado.

      Pessoalmente, o que me faz mais impressão é o número crescente de alunos que preferem perguntas cujas respostas dêem para decorar, porque preferem não ter de interpretar, relacionar, pensar…

      Gostar

  2. “Claro que com turmas grandes e muitas turmas por professor, torna-se complicado.”

    Permita-me discordar. Vejo a coisa precisamente ao contrário. E estou no registo do ensino secundário.

    “Pessoalmente, o que me faz mais impressão é o número crescente de alunos que preferem perguntas cujas respostas dêem para decorar…”

    Também me fazem “impressão” estes casos. E chega a ser de tal maneira que, quando questionados, muitos alunos preferem (apesar de tudo) aulas expositivas e “tirar apontamentos”.

    As áreas disciplinares onde a interacção prof/aluno/s e alunos/alunos é fundamental, e onde se recorre a metodologias diversas desde role-plays, debates, sons, temas nacionais e internacionais de toda a espécie que não contam dos manuais mas de vídeos, revistas e jornais, etc, são , para muitos alunos e respectivos Ees e até colegas, algo que não é para levar tão a sério.

    Talvez porque têm de estar atentos para participar? Será a preguiça do pensar? Será porque isto é “eduquês”?

    O que eu sei é que há 2 anos uma Ee me questionou (em tom depreciativo): “Mas que tipo de aulas é que a professora dá?”

    Ao que respondi que as portas da minhas aulas estavam abertas à senhora para ver in loco. Sempre que quisesse.

    “Mas a minha filha no ano passado- 10º ano- tinha melhores notas!!”

    Vim a descobrir que no tal ano anterior, por exemplo, , o tema dos textos escritos eram dados com 1 semana de antecedência para os alunos se prepararem.

    Fiquei mais descansada…..

    Gostar

    • Cara Fernanda, eu estou mais no “registo do básico” e de uma disciplina como História onde podemos ter, por exemplo no 7º ano, de abordar matérias que vão desde o aparecimento do Homem até ao final da Idade Média com 90 minutos semanais.

      Nestas condições não há tempo para fazer e apresentar trabalhos nem para grandes criatividades pedagógicas, ou então nem metade do programa se consegue leccionar.

      Gostar

Comentar

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s