O ensino profissional na encruzilhada

tic.gifO que tem vindo a mudar é a ideia de que há um ensino de primeira, que é o científico-humanístico, e um ensino de segunda, que é o ensino profissional. O que se passa é que os alunos que concluem um curso profissional encontram emprego com facilidade. Os alunos que terminam o 12.º ano de um curso científico-humanístico e não prosseguem estudos não têm qualquer competência profissional e vão engrossar as fileiras do desemprego. Acresce que os alunos que frequentam os cursos profissionais podem igualmente prosseguir estudos e, em muitos casos, estão muito mais bem preparados para o fazerem e com assinalável sucesso. Os jovens e as famílias percebem as vantagens e fazem a escolha certa, ou seja, optam pelos cursos profissionais.

José Luís Presa, presidente da ANESPO – Associação Nacional de Escolas Profissionais, apresenta, em entrevista ao Educare, uma visão algo idílica do ensino profissional e do maravilhoso mundo de empregos e oportunidades que se abrem aos jovens que enveredam por este subsistema de ensino.

Concordo que urge acabar com o estigma de um ensino de segunda categoria, para alunos mais fracos ou menos motivados para estudar, que frequentemente recai sobre os cursos profissionais. Precisamos de formar técnicos qualificados para as mais variadas áreas e a maioria dessas pessoas não precisam de formação superior, mas sim de um ensino de nível secundário capaz de conjugar a teoria e a prática, a escola e a empresa, as aulas e os estágios profissionais.

Mas a verdade é que nem tudo corre bem nesta área, onde o governo quer colocar, até 2020, 50% dos jovens que frequentam o ensino secundário. E não é apenas pelos lindos olhos dos alunos, das empresas ou da economia nacional. É que a maior parte do financiamento destes cursos, incluindo os salários dos professores, são pagos por fundos europeus. Cada turma regular que fecha para abrir outra no ensino profissional representa uma poupança directa no orçamento da Educação, e isso explica boa parte do interesse político por estes cursos.

Ao contrário do que sucede na via mais generalista dos cursos científico-humanísticos, torna-se difícil, sobretudo no interior do país, ter uma oferta alargada de cursos cobrindo as diferentes vocações e áreas de interesse dos alunos. E nem sempre a rede escolar é adequadamente planeada, seguindo-se muitas vezes uma linha algo errática de abertura e fecho de cursos que nem sempre corresponde às necessidades dos alunos ou do tecido empresarial.

Quanto à alegada facilidade de obtenção de emprego, os 85% de jovens empregados um ano após a conclusão de um curso profissional dizem-nos muito pouco se tomarmos em conta que grande parte deles acabam por se empregar em áreas que pouco ou nada têm a ver com a sua certificação profissional.

Além de que, se um número também significativo destes jovens não acabassem por prosseguir estudos no ensino superior, a pressão sobre o mercado de trabalho seria muito maior e o número de desempregados certamente mais elevado.

Ou seja, e como já por aqui várias vezes se defendeu, a formação profissional, tanto ao nível do secundário como do ensino superior é fundamental para dar maior empregabilidade aos jovens que tentam aceder ao mercado de trabalho. Mas é um erro pensar-se que o problema do desemprego se reduz à falta de qualificações dos que procuram trabalho.

Melhores salários e condições de trabalho, empresas mais sólidas, produtivas e competitivas, estabilidade profissional como contrapartida do “amor à camisola” que tantas vezes os patrões exigem sem nada dar em troca: não se resolvam estes e outros problemas que afectam o mundo do trabalho e a nossa frágil economia, e bem poderemos continuar a clamar por mais ensino profissional…

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