O sucesso escolar segundo João Costa

sucesso.jpgJoão Costa, Secretário de Estado da Educação, escreve no Público a propósito da divulgação recente dos resultados dos testes internacionais em que participaram escolas e alunos portugueses. Vale a pena ler atentamente, desde logo porque JC evita o simplismo e a demagogia comuns no discurso político sobre educação, propondo em vez disso uma reflexão sobre matérias necessariamente complexas.

Começa assim por constatar o óbvio, que é o facto de os resultados de Portugal terem vindo a subir de forma consistente ao longo de duas décadas, não sendo possível atribuí-los especificamente à acção de um certo governo ou aos efeitos de determinada política: a ter de ser endossado a alguém, o sucesso pertence em primeiro lugar aos alunos portugueses e, logo de seguida, aos professores que com eles trabalharam.

JC rejeita o discurso do passa-culpas a que nos habituámos com outros governos, para quem tudo o que corria bem era devido às sábias medidas de quem manda, e o que falhava era culpa dos outros. Na educação, o esforço tem de ser de todos e é mais importante colmatar em tempo útil as falhas detectadas do que andar a encontrar culpados ou a inventar desculpas. E não se acanha em sugerir novas linhas de acção a instituições mais habituadas a avaliar os outros do que a questionarem-se a si próprias:

[…] quando vemos que há uma progressão consistente dos resultados do PISA, mas os alunos portugueses não exibem o mesmo nível de progressão nos exames nacionais de 9-º e 12.º ano, devemos questionar as razões para esta assimetria e até avaliar os nossos próprios instrumentos de avaliação externa – um desafio para o Conselho Científico do IAVE.

Ou seja, e de forma mais directa, porque é que os testes internacionais revelam que os alunos de 15 anos estão a progredir nas Ciências, enquanto os exames do final do secundário os mostram a descer?…

Sempre que temos menos alunos retidos, sempre que a escola combate injustiças socias garantindo melhores aprendizagens para todos e em particular para aqueles que nascem em contextos em que tudo concorre para que a vida lhes corra mal, sempre que tal acontece, é o país que ganha. O sucesso escolar não tem dono, porque é um desígnio nacional e, por isso mesmo, é uma vitória para todo o país.

A terminar, o Secretário de Estado deixa-nos todo um programa de acção condensado em poucas palavras, que me serve para sublinhar um aspecto algo paradoxal da educação portuguesa que os testes PISA vieram revelar: a grande maioria das retenções atingem os alunos oriundos de contextos socioeconómicos mais desfavorecidos; contudo, o sistema educativo português é daqueles onde há mais alunos resilientes – os que superam as dificuldades e os condicionamentos do meio, realizando percursos escolares de sucesso.

Longe de diabolizar as retenções, parece-me cada vez mais que elas têm feito parte integrante do caminho português para o sucesso educativo: reter os alunos menos preparados tem servido, à falta de melhores recursos, para que criar melhores ambientes de aprendizagem aos alunos que progridem. No fundo, a generalidade dos alunos, bons e menos bons, está a fazer hoje mais e melhores aprendizagens do que há uma ou duas décadas atrás. O que estamos é a levar demasiado tempo a obter bons resultados, e isso leva-nos aos problemas estruturais da baixa produtividade e da falta de organização. Que são transversais na nossa economia e na nossa sociedade, e tardam demasiado em ser resolvidos.

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