Os testes PISA e o insucesso escolar

pisa2.JPGOs alunos portugueses que em 2015 estavam no 10.º ano e que realizaram os testes PISA obtiveram uma média de 549 pontos na literacia em ciências, o que colocaria o país em 2.º lugar, logo atrás da Singapura, no conjunto dos 70 países e economias que foram avaliados no grande estudo internacional da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE). Já os estudantes que então frequentavam o 7.º ano não foram além dos 376 pontos.

Não percebi se esta análise de Clara Viana é simplesmente parva ou se nos pretende tomar, a todos os que a lemos, por parvos.

Claro que se fizéssemos os testes PISA só com alunos de 15 anos que estão no 10º ano os resultados seriam melhores. Porque são, à partida, melhores alunos, e também porque, estando mais avançados nos estudos, já aprenderam mais coisas.

Os que reprovam são, em princípio, alunos mais fracos ou com maiores dificuldades. Se tivéssemos um sistema que, evitando ou impedindo as retenções, permitisse que eles acompanhassem os colegas com melhor desempenho escolar até ao 10º ano sem nunca ficarem retidos, não se transformariam, miraculosamente, em bons alunos.

O que teríamos era, nas contas apresentadas pela jornalista, uma média muito mais baixa no universo de alunos de 15 anos já a frequentar o secundário. Não estaríamos “logo atrás da Singapura” mas muito mais abaixo.

Podemos entender-nos quanto à necessidade de reduzir as retenções e de as substituir, sempre que possível, pela transição de ano acompanhada pelos necessários apoios pedagógicos. Ou por uma maior aposta em pedagogias activas e colaborativas que envolvam mais os alunos na sua própria aprendizagem. O que se dispensa é a manipulação e a demagogia barata com que se procura condicionar uma discussão que, embora no centro do debate político, deve decorrer com  seriedade e ponderação.

Na verdade, e como já outros salientaram, há pelo menos duas coisas que a melhoria consistente dos resultados da educação portuguesa nos testes e rankings internacionais evidencia: estamos a conseguir, aos poucos, emparceirar entre os melhores, e esse esforço é tanto mais notável quanto é notória a inconsistência das políticas educativas e tardia a expansão da escolarização entre a população portuguesa. Mas os progressos dos últimos anos têm sido conseguidos à custa de duas coisas: primeira, demasiado tempo dos alunos na escola e demasiadas aulas para aprender o mesmo que outros aprendem em menos tempo; segunda, o recurso rotineiro à retenção como resposta às dificuldades dos alunos que não conseguem progredir ao ritmo da turma.

Tornar mais produtivo o trabalho nas aulas e eficaz a detecção das dificuldades dos alunos e o apoio para a sua superação: conseguir fazer isto sem baixar o nível de qualidade que a escola portuguesa conseguiu já alcançar, eis o desafio que nos deveria, colectivamente, mobilizar.

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