Os millennials e o declínio da democracia

…Os millennials, nascidos entre o início dos anos 80 e meados do final do século, [são] a geração da internet, a mais qualificada, preparada e informada (ou, pelo menos com maior acesso à informação) de sempre. Mas também a geração onde a indiferença e o descontentamento em relação à política são tão acentuados que muitos millennials estarão dispostos a trocar a democracia por algo diferente (mas não necessariamente novo) – como um golpe de Estado militar.

Aqueles que sempre viveram em liberdade e democracia, ou que, como é o meu caso, eram crianças quando foi derrubada a ditadura e não guardam desses tempos senão vaga e superficial lembrança, têm muitas vezes a tendência em dar por adquirido, para todo o sempre, o respeito pelas liberdades individuais e pela vontade da maioria.

Na verdade, não é assim. O conceito de democracia surgiu em Atenas há cerca de 2500 anos, e apesar de ter sido aplicado com sucesso no governo da maior e mais rica cidade da Grécia Antiga, e noutras o copiaram, tal não impediu que o poder democrático viesse rapidamente a soçobrar perante inimigos externos da cidade – os Macedónios, os Romanos – e os que o desvirtuaram e destruíram internamente – os plutocratas e os demagogos.

Há quase cem anos, o fim da Primeira Guerra Mundial trouxe consigo uma vaga democrática que varreu quase toda a Europa, onde novas e democráticas repúblicas substituíram os grandes impérios em desagregação. Contudo, passados pouco mais de dez anos, as soluções autoritárias ganharam novo vigor e, alimentadas pelas dificuldades económicas e problemas sociais trazidos pela Grande Depressão, novas e repressivas ditaduras, quase todas de tipo fascista ou aparentadas com o fascismo, se instalaram ao poder.

Nos dias de hoje, e quando, curiosamente, atravessamos uma longa crise económica com bastantes semelhanças com a que ocorreu nos anos 30 do século passado e que acabou por culminar na Segunda Guerra Mundial, os extremismos, sobretudo à direita, ganham de novo terreno. Depois de diversos regimes que, na Europa de Leste, ensaiam respostas autoritárias e xenófobas a problemas como o desemprego, a imigração ou a crise dos refugiados, da vitória do Brexit no Reino Unido e de Trump nos EUA, há cada vez mais quem questione se, afinal de contas, a democracia política será mesmo o valor seguro com que os habituámos a contar.

Os cientistas políticos Yascha Mounk, da Universidade de Harvard, nos EUA, e Roberto Stefan Foa, da Universidade de Melbourne, na Austrália, investigaram a questão a fundo e concluíram que, de facto, as democracias estão em risco de declínio. E o problema maior nem é haver mais países não livres ou onde as liberdades e o jogo democrático são condicionados: é o número crescente, entre as novas gerações, dos que desvalorizam a liberdade e a democracia e que tendem a aceitar soluções políticas autoritárias. Um dos gráficos que ilustra a notícia do Expresso demonstra-o claramente.

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Os autores do estudo acabam por centrar a sua atenção na chamada geração do milénio, os que nasceram entre o final dos anos 80 e a última década do século passado: a maioria destes jovens, que andam agora entre os 20 e os 30 anos, interessam-se pouco por política, criticam os políticos tradicionais e não valorizam os mecanismos da democracia representativa: um golpe de Estado ou outra solução anti-democrática parece-lhes aceitável como forma de resolver problemas que através de processos democráticos não encontram solução.

Contudo, estes retratos geracionais são sempre demasiado redutores: nem todos os jovens pensam da mesma forma, e se a descença de alguns os afasta até do acto cívico elementar que é votar, outros há que se envolvem e participam na vida política, lutando pelos seus ideais e convicções. E mesmo quando votam em líderes populistas e demagogos, fazem-no atraídos mais pelo discurso anti-sistema do que pelas ideias que são defendidas em concreto.

Sinal de que estes descrentes da democracia, jovens e menos jovens, são mobilizáveis para causas que os interessem e motivem. Querem que o seu voto ajude a mudar alguma coisa, e não se limite a legitimar no poder os mesmos de sempre. Assim como a direita radical e populista consegue votos capitalizando o somatório de descontentamentos, também à esquerda deverá existir a ousadia de propor políticas diferentes. De quebrar os consensos politicamente correctos que a têm transformado em mera gestora das políticas de direita, sem alma nem ambição para se abalançar às mudanças de que necessitam as nossas sociedades.

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5 thoughts on “Os millennials e o declínio da democracia

  1. Parece-me que os jovens não estão contra a democracia, mas sim contra uma “democracia farisaica” com um discurso e rituais que visam esconder a apropriação do poder e da riqueza por uns tantos.
    Bem ilustrativo, é a novela da CGD : dado o estado a que levaram a nossa banca, os gestores deviam estar a trabalhar a preço de saldo; em vez disso propöem-se salários obscenos e isencao de declaracao de rendimentos. Perante isto e muito mais., é natural que os jovens e menos jovens fiquem algo descorçoados e favoreçam uma varridela na casa. Qualquer alternativa que surja, será apelidada de “populismo”, uma frase muito em voga nos nossos dias.

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  2. A democracia não é fácil (Obama disse), não é barata (outros já o disseram), e é criada e mantida por cidadãos informados (isto digo eu).

    Três características que começam (uma vez mais na História) a abalar alicerces.

    Como terá dito Galileu Galilei aos seus mais próximos, ao desdizer a teoria heliocêntrica: “Mal vai o país que precisa de heróis”.

    Heróis só gosto dos da banda desenhada. Mas estou disposta a mudar de pensamento e a defender heróis colectivos.

    Uma internacional de heróis colectivos.

    (desculpem estas linhas, mas ou é do vento e da chuva ou é do congresso do PCP e do tio Jerónimo)

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  3. Os “pensadores” que temos

    (“Pátria e patriotismo) …é a palavra dos perigos imprevistos. E dos fantasmas ameaçadores. Patriótico é tam bém contra a globalização, o liberalismo político e económico, contra o mercado livre e a liberdade científica”

    A. Barreto acusa o pátria e patriotismo de fantasmas ameaçadores. Tem razão, pelo que temos visto.

    Mas há aqui algo que não bate certo, a não ser que A. B. nos esclareça que o que temos vindo a viver é, efectivamente:

    – a globalização
    – o liberalismo político e económico
    – o mercado livre
    – a liberdade científica

    Ou palavras e expressões “de perigos imprevistos e de fantasmas ameaçadores” tal como Pátria e patriotismo.

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  4. Confesso que já gostei de ler António Barreto, independente de concordar ou não com as suas análises. E muitas vezes não concordava.

    Mas deixei de ter paciência para o ar gravissério de oráculo do regime, raramente o leio e mais raramente ainda o comento: a caturrice acentuou-se, o primarismo substituiu a profundidade da análise e os preconceitos sobrepõem-se ao olhar crítico e isento do cientista social. E quando o tema é o PCP, os traumas de juventude impõem-se e a coisa piora…

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