Pedagogia da coragem

luaty.JPGNum blogue de educação, também se deve falar disto: do essencial que é lutarmos por princípios e convicções.

E se nem todos têm a coragem moral e física de resistir à prepotência e à opressão como o fizeram Luaty Beirão e os seus companheiros, a pedagogia da coragem é fundamental para que outros os sigam e o exemplo frutifique.

Pois todos os ditadores caem quando deixam de encontrar quem lhes obedeça cegamente.

O “cota Pacheco”, como carinhosa e respeitosamente lhe chamou Luaty, classificou a obra, intitulada Sou Eu Mais Livre, Então e publicada em Portugal pela Tinta da China, como “um livro que ajuda à visibilidade e à luta dos angolanos, de gente que tem uma espécie de mal-estar” em relação ao regime do Presidente José Eduardo dos Santos, um livro que “merece ser lido e merece ser discutido”.

“Nestes tempos de miséria ideológica, é muito importante que alguém se dê ao trabalho de resistir”, sublinhou José Pacheco Pereira. O historiador e comentador político defendeu ainda que o Portugal pós-colonialista tem responsabilidades por assumir. “Nós temos essa culpa colectiva: que os partidos políticos, sobretudo os do centro, ajudem à perpetuação do regime angolano e à miséria do povo angolano”, frisou.

Daniel Oliveira tomou a palavra para dizer: “A única coisa que eu queria fazer era agradecer ao Luaty e a todos os outros pela pedagogia da coragem – e, atenção, não falo de heroísmo, falo de coragem, de servirem como um exemplo de decência.

“O dinheiro compra as cobardias, compra os silêncios, e essas coisas são as mais difíceis, explicou, acrescentando que o caso dos 17 activistas angolanos “nunca foi uma questão de direitos humanos, foi uma escolha política”, considerou o cronista do semanário Expresso. “Ser preso por uma ditadura é uma medalha”, referiu.

Após meses de prisão, julgamento e condenação dos 17 activistas detidos em Junho de 2015 por estarem juntos a ler e a debater o conteúdo do livro de Gene Sharp Da Ditadura à Democracia, Luaty, que sobreviveu a duas greves da fome durante o processo, uma das quais de 36 dias – no limiar da sobrevivência –, agradeceu aos presentes no Teatro Cinearte, que enchiam a sala, o seu contributo para denunciar a situação.

“Muito obrigado pelo que fizeram por nós. Fez toda a diferença”, disse o activista de 35 anos, fazendo questão de frisar que não é uma vítima e que tudo o que viveu nos últimos tempos em Angola “faz parte do desafio político para melhorar o país”.

“O que nós temos de fazer em regimes ditatoriais com fachadas de democracia é provocá-los. Eles dão-nos os factos, fazem-nos esse favor, e nós agradecemos. É claro que nos sai do lombo: um sanguezinho aqui, uma cabeça aberta ali, uma prisão? Mas vale a pena, é preciso continuar a dar o corpo”, defendeu. “O Zé Eduardo [dos Santos] ajudou-nos muito a mudar o país (…) e saímos todos mais fortalecidos. Vale a pena continuarmos nesta via”, declarou. Quanto à posição de Portugal perante o regime, o rapper luso-angolano considerou que o país cumpre o papel de receptor do roubo.

 

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