Cartilha desonesta

ponces.jpgAquele senhor patusco que está à frente das escolas João de Deus e é sabedor de muitas coisas, deu uma entrevista ao DN.

António Ponces de Carvalho defende, como é natural, o método de ensino usado nas escolas que dirige, baseado na aprendizagem da leitura a partir da Cartilha Maternal, o manual escolar criado pelo seu avô, João de Deus. E os bons resultados que os seus alunos têm vindo a alcançar ao longo de gerações.

Mas no correr da entrevista o que mais vai saindo são lugares-comuns, como a lengalenga dos programas e das regras sempre a mudar, a tendência para a uniformização no sistema educativo, a chatice de ter de cumprir normas e regulamentos e de já não se poder, como noutros tempos, passar por cima de vistorias e fiscalizações desfavoráveis com uma palavrinha “às chefias”:

Antes sofríamos porque as leis eram passíveis de várias interpretações, mas sempre podíamos ir às chefias e tínhamos um árbitro imparcial. Agora o parecer do técnico é sacrossanto e ninguém se atreve a contrariá-lo. 

E o dinâmico empreendedor educativo exemplifica com as contrariedades que teve de enfrentar, quando uma técnica exigiu que, numa creche, as fraldas sujas não percorressem, no interior da instituição, o mesmo circuito que as refeições dos bebés:

Só nos largou ao fim de oito meses de discussão, quando chegámos a um acordo: marcar no chão dois corredores com pintas a vermelho para onde passava a comida e a azul para as fraldas. Estamos nas mãos de técnicos que bloqueiam projetos capazes de criar riqueza e emprego.

Curiosa forma de inverter a questão: o que os técnicos verificam é se os projectos estão de acordo com as normas regulamentares. Se surge um “bloqueio”, a culpa não é do funcionário que cumpre o seu dever, mas do promotor que quer passar por cima da lei, infringindo normas elementares de higiene e segurança e colocando em risco as crianças que recebe na instituição.

Mas as palavras mais simpáticas dedica-as, quase a finalizar, aos professores do ensino secundário:

Eu estive no público muitos anos e sei que um professor do secundário formalmente tem 25 horas letivas e dez não letivas. Nas letivas tem reduções, por isso a maioria só tem realmente 14 horas. Mas como há uns anos se alterou essa formulação de hora para tempo letivo – e cada um tem 45 e não 60 minutos -, na verdade o professor trabalha menos de dez horas. Estamos a brincar!

Tendo em conta que a entrevista foi feita durante um almoço bem regado e que estas alarvidades foram ditas já no final, ainda pensei que haveria de dar algum desconto. Mas não: os professores já andaram demasiado tempo a ouvir e a calar, e é por atoardas deste género se irem propagando insidiosamente, sem contraditório, que por vezes nos damos conta que uma boa parte da opinião pública tem uma imagem distorcida dos professores e da sua profissão.

Os professores do secundário sabem que o seu horário é de 22 horas lectivas, que as reduções só começam aos 50 anos e só atingem as 14 horas aos 60. Que mesmo assim estas reduções se convertem em tempos não lectivos, pelo que o período de permanência semanal na escola acaba por ser o mesmo. Que os 10 minutos de pausa que inclui uma hora lectiva são tempo de trabalho, durante o qual o professor permanece na escola, havendo tarefas que só pode realizar nessa altura. E que, se a escola optar por tempos lectivos de 45 minutos, o professor terá que dar mais uma ou duas aulas semanais e há toda uma contabilidade feita ao minuto para o obrigar a compensar os minutos sobrantes.

Não, os professores do ensino público não trabalham dez horas semanais. Têm um horário de trabalho que muitas vezes excede as 35 horas regulamentares e não teriam tempo, como tem o dr. Ponces, para ir passar tardes às matinés televisivas, onde falam do que sabem e, pelos vistos também, e com idêntica facilidade, do muito que ignoram.

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2 thoughts on “Cartilha desonesta

  1. São estes os aldrabões que continuam a ter tempo de antena nas televisões e nos jornais para denegrirem as escolas públicas e insultarem os professores.

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