A privatização do currículo

É o que parece estar a suceder nas escolas do 1º ciclo do Agrupamento de Paço de Arcos, no concelho de Oeiras, a pretexto da “Educação Financeira”, uma das transversalidades que integram a Educação para a Cidadania. O que o agrupamento em causa fez foi substituir um tempo lectivo do horário dos alunos pelas prelecções de uma organização que funciona como testa de ferro da conhecida multinacional de consultoria Deloitte. Os pais não foram tidos nem achados nesta decisão e limitaram-se a receber uma breve informação acerca do facto consumado:

deloitte.jpg

Soube deste caso através do L’Obéissance est morte, que por sua vez deu voz à denúncia de um pai, indignado perante o que entendeu ser, e com razão, uma concessão de tempo lectivo a uma entidade privada para formatar a cabeça dos miúdos.

Claro que tudo isto se faz ao abrigo da autonomia das escolas, o que permite desde logo ao ministério lavar as mãos de responsabilidades. Mas a verdade é que este tipo de parcerias, em que algumas escolas privadas sempre apostaram, deveriam estar ausentes das escolas públicas. Assim como as aulas de Religião e Moral são opcionais, e ninguém defenderá que possam não o ser, que sentido haverá em introduzir formações obrigatórias, dadas por empresas que promovem uma determinada visão, construída de acordo com os seus próprios interesses, acerca do que são os mercados, os investimentos ou o nosso futuro colectivo?

Ou, como questiona o pai que denunciou publicamente o que se está a passar:

A economia pode e deve ser ensinada às crianças, de resto, boa parte delas, pelas dificuldades que os pais enfrentam, já terão boas noções sobre a economia do lar, mas qual o sentido de lhes injectar a pastilha sobre a “importância dos bancos” ou dos “seguros”, antes da poesia, do teatro, da equação, da lógica, da geografia ou da história? Mais, se é para lhes ensinar algo sobre o sistema financeiro, como é possível que aceitemos que essa tarefa seja delegada numa agência cujo lucro advém de camuflar as mal-feitorias dos agentes que operam precisamente no sistema financeiro? Vão explicar porque razão foi a banca a contrair a dívida? Vão deixar claro que os seguros são uma forma moderna de agiotagem? Vão deixar claro que o capitalismo implica o aumento exponencial dos pobres? Vão fazer as contas que sugere Almeida Garrett, quando nos pergunta ‘quantos pobres são necessários para fazer um rico?’.

Quando o ME se prepara para, em nome da gestão flexível do currículo, entregar às escolas a capacidade de decidir sobre 25% do tempo curricular dos alunos, e até sugere que sejam utilizados preferencialmente no desenvolvimento de variados projectos, é com preocupação que antevejo a oportunidade que se irá começar a desenhar para todo o tipo de vendedores de banha da cobra começarem a bater à porta das escolas para, vendendo pseudo-formação a custo zero, obter em troca audiências escolares. Ou seja, possibilidade de dispor do tempo das crianças para lhes tentar inculcar uma particular visão do mundo em que vivem. E nunca é demais recordar o que está escrito no artigo 43º da Constituição:

2. O Estado não pode programar a educação e a cultura segundo quaisquer directrizes filosóficas, estéticas, políticas, ideológicas ou religiosas.

As escolas públicas também são Estado, e não é por o ministério atirar para cima delas as responsabilidades que deixou de querer assumir que estas saem diminuídas. O pai que tenho vindo a citar desobrigou o filho de assistir às “aulas” da subcontratada da Deloitte. Já os professores, esses não podem simplesmente virar as costas à indignidade: têm o imperativo de defender os valores da escola pública e da sua profissão.

Anúncios

Comentar

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s