E se deixasse de haver manuais obrigatórios?

manuais[1]É a questão que ontem colocava Paulo Guinote a propósito da pressão que o duopólio que domina o mercado dos livros escolares está a fazer sobre o governo, perante a perspectiva da redução de lucros e de reconversão do modelo de negócio.

De facto, antes de nos perdermos na discussão sobre o número de anos de vigência de cada manual, se se pode ou não escrever neles, se são dados ou emprestados, se para todos os alunos ou apenas os carenciados e por aí adiante, talvez faça sentido começar pelo princípio: precisamos mesmo dos manuais escolares?

Depende. Muitos professores que já leccionaram em cursos profissionais ou vocacionais, ou nos CEF, PCA ou semelhantes, estão acostumados a construir os seus materiais pedagógicos ou a adaptá-los a partir de diversas proveniências e sabem que isto é, não só possível, mas muitas vezes até a forma mais eficaz de trabalhar com determinadas turmas, porque é feito à medida daqueles alunos concretos e das metodologias que o professor está a usar.

Mas a compilação dos materiais pedagógicos feita pelos professores também tem alguns inconvenientes, a começar pelo tempo que se despende na sua preparação. E uma coisa é fazê-los para uma ou duas turmas, outra é preparar assim todas as aulas. Parece-me contraproducente, e se calhar até mesmo um autêntico tiro no pé em relação a algumas das justas reivindicações dos professores, que nos andemos a queixar da sobrecarga de trabalho que recai sobre nós e ao mesmo tempo a reclamar, de ânimo leve, mais esta pesada tarefa.

Por outro lado, os materiais gráficos produzidos na escola têm custos, que serão elevados se o seu uso for sistemático. Também não terão a qualidade a que os manuais dos últimos anos têm habituado os nossos alunos. Claro que se pode projectar imagens, textos e vídeos, e disponibilizar estes materiais através de plataformas como o Moodle, de uso generalizado nas escolas. Mas a maioria dos professores habituou-se, julgo que correctamente, a encarar estes recursos como um enriquecimento da sua prática pedagógica e não um substituto do manual da disciplina.

Dito isto, acho que existe excesso de regulamentação sobre adopções de manuais escolares e demasiada rigidez nas normas em vigor. E penso que a muito falada mas pouco praticada autonomia real das escolas deveria passar também pela possibilidade de cada uma definir a sua própria política de adopções, flexibilizando a duração dos períodos de adopção e contemplando, entre outras coisas, a possibilidade de tornar o uso do manual facultativo ou a de as escolas os adquirirem directamente às editoras e fazerem a sua distribuição pelos alunos.

Tratar-se-ia, no fundo, de inverter uma lógica criada ao longo das últimas décadas, que submete a política dos manuais no negócio das editoras, para outra radicalmente diferente, centrada nos interesses dos alunos, das escolas e das famílias.

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