A WebSummit e as ilusões da nova economia

web.summit.jpgNão é um autor que habitualmente me inspire, mas desta vez Henrique Monteiro coloca questões muito pertinentes a propósito da cimeira da Web que está a decorrer em Lisboa.

Porque é que a nova economia das startups e do empreendedorismo, da quarta revolução industrial e da internet das coisas, da automatização e da robótica, não gera crescimento económico que se veja, não cria empregos e, em vez disso, vai aos poucos esboroando a classe média que empobrece quase ao mesmo ritmo a que os geeks da nova vaga empresarial e tecnológica constroem as suas fortunas?

Nesta nova economia, os cidadãos servem como consumidores, mas são cada vez mais excluídos enquanto produtores. Pois a concepção dos produtos é confiada aos génios da informática e dos negócios, enquanto a produção física fica a cargo de robôs. Empregos normais para pessoas normais, aquilo que existiu em todas as anteriores revoluções industriais, tendem agora a desaparecer.

E se formos a olhar bem para os resultados visíveis de todo o progresso das últimas décadas, vemos que o essencial da evolução tecnológica tende a convergir e a concentrar-se no telemóvel inteligente que quase todos, nos dias de hoje, transportam consigo. A verdade é que, por baixo da carapaça de sofisticação electrónica, os automóveis, os aviões, os elevadores ou os frigoríficos continuam a funcionar basicamente como o faziam há 50 anos atrás. E nalguns casos há mesmo regressões: demora-se hoje mais tempo a ir de Londres ou Paris a Nova Iorque do que nos anos 70 do século passado a bordo de um Concorde.

Haverá verdadeiro futuro numa revolução que exclui a grande massa da população, remetendo-a para a improdutividade, o trabalho indiferenciado ou a economia do biscate, ao mesmo tempo que cria toda uma geração de consumidores passivos, curvados a olhar para o telemóvel de última geração enquanto usam a mais recente e sofisticada das aplicações? O autor não dá respostas, mas desafia todos, inclusivamente a classe dos jornalistas, a olhar mais atenta e criticamente as WebSummits, as empresas que as patrocinam e os negócios que estão na moda:

É tempo de os jornalistas abandonarem a simpatia imediata quando têm contactos com o mundo das start-ups. É tempo de fazer perguntas sérias. Porque é que o dono da Amazon não quer trabalhadores nos seus armazéns? Porque é que só quer drones a arrumar as caixas? De onde vem esta obsessão distópica contra a figura do trabalhador? É tempo de acordar, porque populistas como Trump estão a preencher o abismo que existe entre a boa imprensa imediata das WebSummit e os efeitos negativos que essa economia tem nas pessoas. Sem nunca pôr em causa a inovação, já é tempo de desafiarmos a sereia tecnológica. A economia start-up tem um futuro coletivo lá dentro ou é um fetiche de uma elite?

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