A educação e as presidenciais dos EUA

richard-zimler.png“Existe um fenómeno estranho nos Estados Unidos que quase não existe na Europa: a palavra intelectual tem uma conotação negativa. Quem tem mais conhecimento é uma pessoa suspeita, duvidosa. Temos [nos Estados Unidos] muitos milhões de pessoas – e isto vai parecer muito estranho – que valorizam a sua própria ignorância. Que orgulham-se de ser ignorantes, de não conhecer o resto do mundo, de não conhecer bem os temas mais importantes e que realmente só valorizam os Estados Unidos como o país mais poderoso, mais interessante, com gente mais rica”, realçou.

Tais pessoas, segundo Richard Zimler, representam a ideia de “uma América muito isolada” que “mete medo”, porque é “menos tolerante, mais racista, mais homofóbica, mais misógina”.

Para o escritor, não é preciso uma pessoa ser doutorada em estatística para compreender a ligação direta entre escolaridade e a votação do próximo dia 8 de novembro.

“Um mapa muito interessante dos Estados Unidos que se pode fazer é o mapa de votação segundo os níveis de educação. Nos estados em que o nível de educação é mais alto, como Nova Iorque, Massachusetts, Connecticut, Vermont, Califórnia, eles são claramente a favor de Hillary Clinton com uma vantagem grande, e os estados em que os níveis de educação são mais baixos, como Mississippi, Alabama, Arkansas, está a ganhar Trump”, exemplificou.

E reforçou: “Uma pessoa formada, instruída, que tem conhecimento do mundo e dos Estados Unidos, que valoriza a ciência, a língua, a multiplicidade de etnias, que valoriza tudo isto não vai votar em Trump”.

Não direi que a escolarização seja um antídoto universal contra a estupidez, o autoritarismo e a demagogia – basta pensar na Alemanha dos anos 30, um dos países europeus mais cultos e instruídos, e onde mesmo assim o nazismo encontrou terreno propício para a sua ascensão – mas parece-me evidente que Richard Zimler tem razão: a candidatura de Trump encontra apoio maioritário sobretudo nos estados norte-americanos que têm uma população menos instruída, mais intolerante e menos viajada.

E sim, no país que criou – mais um mito do que outra coisa! – os self-made men, o anti-intelectualismo tem uma tradição antiga, o que só por si explica em grande medida a ascensão do trumpismo. Onde gente que alcançou uma boa posição económica, sem para isso precisar de grande cultura ou méritos académicos, faz gala de mostrar a sua ignorância e os seus preconceitos, com aquela arrogância que o puritanismo transmite a todos os que intimamente se sentem predestinados.

São os contrastes e paradoxos de um país que tem das melhores e mais elitistas universidades do mundo, a par de um sistema de ensino público que se mostra pouco eficaz a combater as profundas e persistentes desigualdades sociais e a promover a igualdade de oportunidades. E que muitos querem que assim continue, pois enquanto houver escolas onde se rejeita o ensino da teoria da evolução, ou se obriga os professores a ensinar também o criacionismo a par das teorias científicas, os trumps desta vida estarão sempre garantidos. Mesmo que acabem por perder as eleições, já ganharam.

Anúncios

Comentar

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s