O empreendedorismo ataca de novo

dna-cascais.JPGSantana Castilho escreveu ontem no Público sobre o projecto da Câmara de Cascais e do PSD local, disfarçado de sociedade civil, que se anuncia como o  “maior programa municipal de empreendedorismo nas escolas”. Integrado nesse albergue espanhol que é a municipalização da educação, o programa é construído na base do habitual pensamento mágico em torno de softskills, coachings e outros conceitos mirabolantes, dando pelo caminho a mão aos mais bem sucedidos de todos os novos empreendedores: aqueles que montam o negócio vendendo aos outros a cartilha da arte de bem empreender. E estendendo a mão ao dinheiro público, que é, estando os amigos no poder, sempre a fonte mais segura de financiamento dos vendedores de banha da cobra. Mas Santana Castilho percebeu muito bem o que é que uns e outros querem…

Em matéria de parceiros, Cascais tem um de peso: a Junior Achievement Portugal, aquela associação que foi acusada por um grupo de mães e pais de andar a “doutrinar crianças a ver a família como unidade de consumo e produção”.

A educação é cada vez mais pautada pela doutrina da sociedade de consumo e os alunos são cada vez mais orientados para os desejos que a orgia da publicidade fomenta. O nosso sistema de ensino deixa-os sem tempo para serem crianças, porque lhes define rotinas e obrigações segundo um modelo de adestramento que ignora as suas necessidades vitais de crescimento. A compreensão simples do que é uma criança é constantemente distorcida. E, digo-o com pesar, se não tivéssemos demasiados professores a não fazerem o seu trabalho, isto é, apanhando a onda em vez de a questionarem, deixando-se envolver por ideias neoliberais, devidamente higienizadas por discursos modernistas, a probabilidade destes discursos morrerem à nascença era bem maior que a possibilidade de granjearem adesões cúmplices.

Já por aqui escrevi e publiquei textos de outros autores sobre empreendedorismo, que sugiro a quem quiser aprofundar a questão, pelo que remato recordando apenas alguns factos simples sobre a matéria.

O empreendedorismo, na versão redutora que tem sido promovida pela nossa direita neoliberal, é mais um sinal de subdesenvolvimento do que de uma economia moderna e competitiva. Não é por acaso que países como a Grécia e Portugal têm mais auto-emprego do que a Alemanha ou a Noruega. Que haja percentualmente mais empreendedores no México do que nos EUA. Que estes valores sejam ainda maiores no Bangladesh ou nalguns países africanos onde inventar um pequeno negócio é muitas vezes a única forma de conseguir algum rendimento para alimentar a família.

Ora nos países mais ricos e competitivos as boas ideias de negócios desenvolvem-se sobretudo no interior das empresas, que atraem, empregam e estimulam as iniciativas dos trabalhadores, jovens e menos jovens, que aí encontram, num ambiente de exigência e profissionalismo, as condições necessárias ao desenvolvimento dos seus projectos.

O empreendedorismo para crianças, versão infantil do empreendedorismo para totós que o anterior governo promoveu descaradamente, é folclore para entreter o pagode, como bem nota Santana Castilho. Mas é também, bem mais sério do que isso, uma forma de começar desde cedo a incutir a responsabilidade e a culpa, em cada futuro desempregado, pela incapacidade de criar o seu próprio emprego e de ser bem sucedido na profissão e na vida.

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