Greve aos TPC

deberes.jpgCalma, que ainda cá não chegou. Mas está próxima. Foi decretada em Espanha, pela confederação de pais, e destina-se a durar todo o mês de Novembro.

Os argumentos da Ceapa é que os trabalhos de casa “invadem o tempo das famílias” e “violam o direito ao recreio, à brincadeira e a participar nas atividades artísticas e culturais”, tal como vem descrito no artigo 31 da Convenção dos Direitos da Criança.

A confederação distribuiu pelos pais três cartas que estes devem entregar nas escolas: na primeira pede-se ao diretor da escola que ordene aos professores da criança que não lhe passem trabalhos de casa em Novembro, a segunda é o mesmo pedido, mas feito diretamente ao tutor da criança.

A terceira é uma carta dirigida ao professor a explicar-lhe que o aluno não fez os trabalhos devido ao “direito constitucional que as famílias têm de tomar as decisões que considerem oportunas no âmbito familiar, que tem caráter privado, e que a escola não pode invadir”.

Os pais e as mães espanhóis seguem uma linha argumentativa difícil de rebater: de facto, em casa mandam eles, e se entendem que o excesso de TPC está a prejudicar a vida familiar, essa será uma posição que a escola e os professores têm de respeitar.

As associações de pais espanholas invocam o modelo educativo de outros países, que “funcionam sem trabalhos de casa, sem livros de texto e sem exames e obtêm resultados magníficos”. E terão tomado em conta as conclusões de estudos internacionais que demonstram que o excesso de TPC não melhora, só por si, os resultados escolares, podendo mesmo contribuir para acentuar a disparidade entre alunos de famílias ricas ou instruídas, que têm condições para apoiar o estudo, e os de famílias pobres ou pouco escolarizadas que tendem a deixar os miúdos entregues a si mesmos.

Ainda assim, tenho algumas dúvidas de que os pais espanhóis estejam a ver bem a coisa. Duvido muito da eficácia de medidas extremistas no sentido de abolir o TPC, quando talvez interessasse mais discutir a sua extensão ou o tipo de tarefas que são prescritas aos alunos.

É que é extremamente fácil invocar os direitos da criança e da família e reivindicar tempo para o recreio e a brincadeira. Mas os pais que os fazem, retirando à escola autoridade para marcar um trabalho de casa, por mais simples que seja, devem estar conscientes de que ao agir assim estão a assumir uma responsabilidade acrescida na educação dos filhos.

Ou seja, resta saber se o tempo que os pais querem recuperar para os filhos, abolindo os TPC, será mesmo para reforçar o convívio familiar e as actividades “culturais e artísticas” a proporcionar às crianças e adolescentes. Ou se estes apenas irão ganhar mais uma ou duas horas para estarem a ver televisão ou agarrados ao telemóvel, enquanto os pais se dedicam a outros lazeres e afazeres.

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4 thoughts on “Greve aos TPC

  1. Honestamente, não percebo essa sua posição que assume já uma enorme desconfiança perante os pais. E esse para mim é um dos problemas fundamentais. Esta posição dos pais espanhois deveria servir para todos fazermos uma reflexão sobre a escola, a educação, os metodos de aprendizagem, etc, nos quais se incluem os TPC. Pais, professores, alunos e comunidade. Essa posição defensiva serve de pouco no meu entender. Como movimento, acho esta ideia da confederação de pais Espanhola interessante. Espero que traga também cá alguma reflexão.

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    • Há uma coisa que me parece indesmentível: Espanha é um dos países onde os TPC consomem mais horas aos miúdos, e isto merece ser discutido e corrigido. Nada a opor que os pais queiram trazer este assunto para a ordem do dia. O que já me merece reserva é começar-se a discussão com posições irredutíveis do tipo tudo ou nada.

      Não sendo eu um fundamentalista dos TPC, que enquanto professor uso com muita parcimónia, até aceito que se adoptem modelos educativos que dispensem o trabalho de casa. Agora isto implica outra organização da escola e do trabalho escolar e também outro tipo de responsabilidades parentais que não sei se todos querem ter.

      E atenção que isto é um movimento de pais das escolas públicas. Se uma supressão definitiva dos TPC vier a implicar menor preparação dos jovens, por exemplo, para os exames, comparativamente aos alunos dos colégios privados, no final as culpas vão recair em quem?…

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    • Mas é que mandam mesmo.

      Tanto que até podem optar por retirar os filhos da escola e colocá-los em ensino doméstico. Claro que aí aumentam as responsabilidades dos pais, e será apenas uma pequena minoria que terá a disponibilidade, os conhecimentos e a disposição de espírito para acumular os papéis de pai ou mãe e de educador.

      Por isso mesmo é que sou da opinião de que é melhor ir com calma e procurar entendimentos em vez de extremar posições…

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