38 anos, 27 Ministros da Educação

perfis.jpgQuem são os ministros que entre 1974 e 2012 tiveram em mãos a pasta da Educação? A resposta pode surpreender. A larga maioria são homens, nascidos em Lisboa. Provêm de meios sociais favorecidos. E estudaram em liceus prestigiados. Sim, não há caso de um ministro da Educação que tivesse estudado numa escola técnica. Mais: nenhum dos 27 titulares do ensino em Portugal tinha licenciatura em educação ou pedagogia, apenas dois deles fizeram pós-graduações na área. No que diz respeito à representatividade de géneros, os números dão que pensar. Pelo número 107 da Avenida 5 de Outubro passaram apenas quatro “senhoras ministras”. É o que sustenta um trabalho de “sociologia pública”, publicado na revista brasileira Educação e Pesquisa, da Universidade de São Paulo. Nele mostra-se como os ministros da Educação em Portugal “mantiveram um perfil muito específico”, explicou ao EDUCARE.PT uma das suas autoras, Cristina Roldão, investigadora do Centro de Investigação e Estudos de Sociologia, do Instituto Universitário de Lisboa.

O Educare repescou um estudo sociológico publicado em 2014 para traçar um perfil dos 27 ministros que, desde a Revolução dos Cravos até ao governo de Passos Coelho, dirigiram o Ministério da Educação. Trata-se de um estudo interessante e bem mais instrutivo do que algumas xaropadas sobre sucesso & insucesso que têm sido plantadas ultimamente na comunicação social.

Homem, de meia idade, oriundo da capital e da classe média-alta, fez o secundário num antigo liceu de tradição elitista e tem formação superior – no mínimo, uma licenciatura, embora mais frequentemente sejam professores universitários e tenham, portanto, concluído um doutoramento – eis um possível retrato-tipo do ministro da educação português da III República.

Quanto ao perfil profissional, é curiosa a evolução verificada desde os tempos revolucionários, quando pelo cargo passaram vários militares, até aos anos 80 e 90, marcados pelo predomínio dos engenheiros formados no Instituto Superior Técnico, que assumiram forte protagonismo político na altura, e não apenas na educação. Mais recentemente, têm sido académicos das áreas da Sociologia e da Economia a ocupar o cargo.

O que é revelador da forma como as elites dirigentes encaram o sector da educação é nunca ter sido recrutado para o cargo um professor do ensino básico ou secundário: as políticas educativas não são para ser discutidas e consensualizadas com os seus agentes no terreno, os professores; resultam antes de entendimentos e consensos entre os partidos na área do poder e diversos lobbies ligados às universidades e à formação de professores, ao ensino privado, à edição de material escolar, às fundações e outras organizações influentes, pelo que é frequente o ministro e o seu círculo próximo de secretários, adjuntos e chefes de gabinete incluírem pessoas com passagem por estas áreas.

Enquanto se encara com toda a normalidade que um ministro do ensino superior seja um professor universitário, no básico e secundário considera-se necessário preservar, acima de tudo, o distanciamento do ministro em relação aos interesses ditos corporativos dos professores: o ministro desta área pode ter tido qualquer profissão anterior menos a de… professor.

Para o futuro, interessaria alargar esta análise a outros quadros dirigentes do ministério, como os secretários de Estado. Confirmar se a tendência recente para que mais frequentemente senhoras ministras acedam à chefia de um ministério que emprega muitas mais mulheres do que homens, terá continuidade. Se o “fechamento social” da base de recrutamento dos ministros se irá manter, ou teremos futuramente ministros oriundos, por exemplo, da linha de Sintra, ou filhos de operários, ou com um percurso escolar que tenha passado, por exemplo, pelo ensino profissional ou por uma escola politécnica. E, talvez a hipótese mais difícil de concretizar, se alguma vez veremos um colega nosso, professor de uma escola básica ou secundária, a ascender directamente ao cargo ministerial.

 

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2 thoughts on “38 anos, 27 Ministros da Educação

  1. “ou teremos futuramente ministros oriundos, por exemplo, da linha de Sintra, ou filhos de operários, ou com um percurso escolar que tenha passado, por exemplo, pelo ensino profissional ou por uma escola politécnica.”
    Porque não um analfabeto?
    Por volta do 25 de Abril tínhamos vinte e tal por cento de analfabetos. Mas nunca nenhum, nem antes nem depois, chegou a Ministro. Por que é que durante o período fascista só nomeavam gente com curso superior (muitas vezes professores universitários com doutoramento) e não analfabetos, havendo tantos?
    Ao inaugurar-se a democracia deveriam ter nomeado pessoas provenientes dos grupos sociais mais numerosos? Portanto de entre os analfabetos funcionais?
    Suponho que hoje uma boa maioria de cidadãos detesta a política e os políticos. Deve concluir-se que os políticos devem sair de entre estes? Não parece contraditório?

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    • Entendo que queira usar o “analfabeto” como figura retórica, mas julgo que se percebe que não defendo que um analfabeto funcional reúna condições para ser ministro, da educação ou doutra coisa qualquer.

      O que me parece é que não há razão alguma para considerarmos que um engenheiro, para ser bom, deva ser formado no Técnico, e que isso seja relevante para funções políticas que nada têm a ver com engenharia. Ou um economista ter de vir da Nova, um sociólogo do ISCTE, um jurista da faculdade de Direito de Lisboa e por aí adiante.

      Este “fechamento”, como lhe chamam os autores do estudo citado, não diz nada acerca das qualidades excepcionais das pessoas, revela apenas que tem havido uma tendência para recrutar dentro de uma certa elite. E isso é demonstrável estatisticamente…

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