Fraquinho, fraquinho…

estudo-retencoes.JPG…É o estudo sobre o impacto das retenções no ensino básico, realizado por três econometristas daquela faculdade de economia que não encontrou outra forma de dizer que é melhor do que as outras do que arranjar para si própria um nome em inglês.

Este fim de semana pude finalmente ler as cerca de trinta páginas, com folhas em branco e muita palha pelo meio, encomendadas  para aquela acção propagandística que o CNE e a fundação do grupo Jerónimo Martins designaram genericamente Aqeduto e através da qual  tentam condicionar, com a prestimosa ajuda de alguma comunicação social, a agenda educativa.

Será a repetição de ano benéfica para os alunos?

As conclusões nada trazem de novo, ao confirmarem que ficam retidos mais rapazes do que raparigas e que os alunos subsidiados pelo SASE, os de famílias oriundas dos PALOP e os que têm mães pouco escolarizadas reprovam mais do que os que não estão nestas condições. De resto…

A principal conclusão deste estudo é que o efeito global de reter um aluno com baixo desempenho no 4.º ano, no seu desempenho futuro, tal como medido pelas notas nas provas de 6.º ano, é positivo mas pequeno, entre 0,06 e 0,10 valores numa escala de 1 a 5. […] Quando distinguimos entre rapazes e raparigas, o pequeno efeito que tínhamos obtido só é estatisticamente significativo para as raparigas.

Também concluímos que o efeito geral da retenção na progressão escolar de um aluno de baixo desempenho é negativo. A progressão escolar nos anos subsequentes parece ser mais rápida para os alunos inicialmente retidos do que para os alunos que transitaram. Mas mesmo quando obtemos um efeito positivo da retenção na progressão escolar subsequente, esse efeito não é suficientemente forte para compensar o ano de atraso causado pela retenção inicial.

Os nossos resultados não podem ser usados para decidir se um dado aluno do 4.º ano deve ser retido ou não. Alguns alunos podem beneficiar duma retenção, enquanto outros podem ser afetados negativamente. O que concluímos é o seguinte: na Escola Pública Portuguesa, o típico aluno de 4.º ano com baixo desempenho que foi obrigado a repetir esse mesmo ano não beneficiou de tal decisão, e foi, de facto, prejudicado em termos da sua progressão escolar.

Tenho as maiores dúvidas sobre a metodologia usada neste estudo, baseada na comparação entre os alunos que, tendo “negativa” nos exames do 4º ano de Português e Matemática, passaram para o 5º ano e os que ficaram retidos. Claro que os que transitaram eram à partida melhores alunos e se passaram de ano foi porque tinham classificações internas “positivas”. Outro elemento determinante, e que parece não ter sido considerado, é a gravidade, maior ou menor, das dificuldades de aprendizagem dos alunos.

Finalmente, continua a agitar-se o papão demagógico dos custos das retenções, que os autores não resistem a invocar, embora não esbocem sequer a tentativa de os quantificar. Percebe-se bem porquê: no quadro de uma escolaridade obrigatória de 12 anos esses alegados custos são virtualmente inexistentes ou são meramente residuais. Reter um pequeno número de alunos significa que irão ser distribuídos pelas turmas do ano anterior já existentes. Se forem bastantes, o que geralmente sucede é que obriguem a abrir mais uma turma no ano em que ficam muitos retidos, compensada quase sempre com uma turma a menos no ano seguinte. Enfim, uma logística que quem trabalha nas escolas facilmente percebe, mas que tende a escapar aos estudiosos de gabinete.

 

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