Carta de uma jovem portuguesa

maria-barros.JPGMaria Barros é uma jovem que se candidatou este ano ao curso de Medicina, mas por três décimas não entrou na faculdade pretendida. Faz agora planos para ir estudar para Espanha, e entretanto escreveu uma carta aberta ao Presidente da República que a Visão publicou na íntegra.

Há 15 anos, ao arrastar a malinha de médicos de brincar pelo meu quartinho cor-de-rosa, já sonhava e ansiava pelo dia em que poderia começar a estudar para aquele que é o SONHO da minha vida. Mas aqui estou eu, apesar de ter terminado o ensino secundário com média de 17.8 valores, não estou na universidade. E não estou porque me recuso a conformar, a suportar a frustração de estudar algo pelo qual não sinto paixão, escolhendo outro curso só para dizer aos avós que estou na universidade. Por isso vou tentar noutro lado.

Se para muitos a universidade é o passo politicamente correto a dar a seguir ao ensino secundário, para garantir a “futura estabilidade financeira”, e se para alguns é uma obrigação que vem da família, para mim não; o curso de Medicina é e sempre foi o que desejei para a minha vida. Poder ajudar os outros, tratar os que precisam, estudar para garantir que todos têm acesso aos melhores tratamentos é o que vou fazer, seja cá ou no outro lado do mundo. Porque eu quero, porque eu mereço, porque eu preciso. Fá-lo-ei porque sinto que este é o propósito da minha vida, e de forma alguma merece ser desvalorizado ou esquecido por um 16.3 no exame de Físico Química A e por um sistema injusto.

O excerto dá para perceber o tom da missiva e a frustração da jovem que parece ter aprendido bem esse desígnio pós-moderno que manda “seguir os teus sonhos” mas não ensina a lidar com o fracasso: a Maria não entrou em Medicina porque o acesso ao ensino superior é um sistema competitivo, as vagas são limitadas, as regras estão estabelecidas há muitos anos e são do conhecimento de todos e houve outros jovens com um sonho igual ao da Maria que simplesmente alcançaram melhores resultados do que ela.

Perante isto, o que fazer? Aumentar ainda mais o número de vagas em Medicina, que neste momento já são consideradas excessivas porque comprometem a qualidade da formação médica, de forma a que entrassem todos os que estão à frente da Maria e ela também tivesse lugar?

Claro que há erros que a juventude até certo ponto desculpa, mas não deixa de ser uma atitude egocêntrica o assumirmos que queremos alguma coisa porque é o nosso sonho e a forma de nos realizarmos servindo os outros, enquanto presumimos que quem quer o mesmo que nós o faz movido pela vontade de ganhar muito dinheiro, ter emprego garantido ou uma profissão socialmente prestigiada.

Não saberia explicar estas coisas à Maria Barros tão bem como o fez Eduardo Jorge, um médico recém-formado que, com conhecimento de causa, lhe respondeu de forma muito inteligente e ponderada num comentário à peça da Visão que merece ser lido.

Assim, pela minha parte, chamo apenas a atenção a duas ou três coisas que, a par da publicação desta carta sem qualquer enquadramento jornalístico, me causam alguma estranheza:

A média desta jovem, que a deixou a 3 décimas de entrar em Medicina em Lisboa, ter-lhe-ia chegado para entrar, por exemplo, na Covilhã. Ora uma família que aparentemente tem disponibilidade financeira para mandar a filha estudar para Espanha também conseguiria suportar os seus estudos na Universidade da Beira Interior.

Milhares de jovens são todos os anos impedidos de entrar no curso superior da sua preferência e dão a volta à situação, ou conseguindo vaga num curso afim, ou dedicando um ano a melhorar as classificações do secundário para conseguirem chegar à média pretendida.

Esta rapariga terá talvez percebido agora, de uma maneira algo dolorosa, que nem sempre os nossos sonhos se realizam. Que a ideia real de “justiça” nem sempre corresponde à que concebemos quando imaginamos que o mundo gira à nossa volta. Que por muito que acreditemos que somos bons, numa sociedade competitiva pode sempre aparecer alguém melhor do que nós que rouba o nosso sonho.

Claro que nada disto invalida a necessidade, que há muito defendo, de rever o sistema de acesso ao ensino superior. Não podemos é achar que um sistema mais justo e eficaz do que o que temos actualmente se pode criar tomando como critério a satisfação dos sonhos e das ambições individuais de cada jovem que se candidata à universidade.

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