O que faz falta

fabrica.gifDe que precisa Portugal para poder vir a ser um país industrializado?

Ângelo Ramalho, o líder da Efacec, faz o balanço da indústria portuguesa nos últimos dois séculos e sentencia: “Perdemos a revolução industrial do vapor; chegámos tarde às revoluções da electricidade e da automação; e agora estamos muito atrasados na revolução digital”. A quarta revolução industrial está em marcha e o país tem à sua disposição recursos para ir a jogo – o alemão Gunter Horcher, director de Investigação Estratégica do instituto Fraunhofer, afirma que Portugal “tem uma base boa”, que dispõe de “boa investigação e bons quadros”. Mas, mesmo assim, num fórum sobre a indústria do futuro organizado esta semana pelo INESC TEC, no Porto, o balanço que sobrou está longe de ser entusiasmante. Porquê? Gunter Horcher dá a resposta: “Portugal não usa o seu potencial de forma suficiente. Falta coordenação e organização”.

Depois da crise de 2007/2008, as economias avançadas voltaram a olhar para a indústria. Não a do passado, mas a do futuro. A indústria digital ou 4.0. Os americanos lançaram uma rede nacional para a inovação na produção na qual vão investir mil milhões de dólares; os chineses querem liderar a tecnologia mundial e vão aplicar nessa ambição 1.2 biliões de euros; a União Europeia respondeu com programas de nove mil milhões de euros. No espaço de uma década, a sedução da indústria mudou. “Há dez anos os políticos não queriam ser vistos em ambientes industriais. A indústria era coisa do passado. Mas agora todos os políticos querem ir ao MTC (Manufacturing Technology Center)”, diz Harald Egner, um dos directores da instituição.

Já Oliveira Martins constatava que em Portugal existiam a granja e o banco, mas faltava a oficina. E essa carência, quando a indústria se tornava, por essa Europa fora, o sector que mais gente empregava e mais empresários enriquecia, era a principal razão para que o país continuasse pobre e atrasado e a emigração fosse o destino inevitável da população que já não podia tirar o seu sustento da terra nem encontrava emprego nas fábricas ou nas casas dos ricos.

Mais de um século se passou entretanto, mas a indústria continuou sempre a ser o parente pobre da economia portuguesa. Será que agora, depois de termos deixado passar ao lado as três vagas anteriores, estaremos em condições de apanhar a quarta revolução industrial?

Não é impossível. Ao contrário da indústria tradicional, assente em estruturas pesadas que exploravam toda a cadeia de valor e exigiam grandes investimentos de capital, a indústria do século XXI depende do conhecimento especializado, do desenvolvimento de produtos específicos e personalizados e de sistemas de produção flexíveis. Ora segundo os especialistas há em Portugal bons cientistas e engenheiros, há bons laboratórios e centros de investigação, faltando-nos no entanto capacidade de organização e coordenação de esforços para apostar nos sectores em que poderemos fazer a diferença. Os tais nichos, ou clusters, de que há muitos anos se fala, e que são fundamentais num país pequeno e periférico onde os recursos são escassos e a definição de prioridades é fundamental.

A crise financeira de 2007/08, e a recessão que se lhe seguiu, e de que ainda não nos livrámos, mostraram claramente os limites de um modelo económico em que muitos, por essa Europa fora, acreditaram, assente na financeirização da economia e numa ilusória sociedade do conhecimento que iria criar empregos e prosperidade por todo o lado. Ora o que hoje verificamos, depois de toda a especulação e fraude financeira, é que foram os países europeus que mantiveram uma indústria forte e competitiva que aguentaram melhor os efeitos da crise, continuando a gerar riqueza e a criar emprego. O exemplo óbvio é a Alemanha, mas está longe de ser o único.

O ministro da Economia, Manuel Caldeira Cabral, parece optimista em relação ao futuro. Anunciou para breve um programa – Indústria 4.0 – destinado a coordenar estratégias para a digitalização da indústria abrangendo e interligando tanto as empresas tradicionais como as novas startups que trazem dinamismo à economia mas precisam de apoios específicos para vingar. E promete uma terapia eficaz para ultrapassar o atraso do país.

Num país que vê emigrar anualmente milhares de profissionais qualificados, muitos deles em engenharia e outras áreas técnicas onde não estamos a desenvolver-nos como deveríamos, as promessas e boas intenções do ministro são de registar. Oxalá não se tratem de meras palavras de circunstância e o programa para a nova indústria não seja apenas uma forma de, seguindo exemplos do passado, ir buscar fundos europeus para distribuir junto de clientelas seleccionadas, sem efeitos relevantes na economia real.

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