Educação Física voltará a contar para a média do secundário

educacao_fisica.jpgO Ministério da Educação confirmou hoje que a Educação Física voltará a contar para a classificação final do secundário – peso que tinha perdido no ano letivo de 2012/13, mas esclareceu também que as novas regras só produzirão efeitos “para os alunos que entrarem no décimo ano após a publicação de legislação relevante”.

“No quadro mais amplo do trabalho que se encontra em curso com as associações de professores sobre a gestão do currículo, estão a criar-se condições para a valorização da disciplina de Educação Física. Isto assenta num princípio de valorização de todas as áreas do currículo, mas também no desenvolvimento de uma reflexão profunda com o setor que permita sanar as questões associadas à avaliação nesta disciplina”, explicou o Ministério resposta enviada ao DN.

Pedagogicamente, era difícil de justificar a não contabilização da nota de Educação Física no apuramento da média final do secundário, sendo a única disciplina de carácter obrigatório em que tal sucedia.

Claro que a preocupação do ministério de Nuno Crato, quando tomou essa medida em 2012, era com os alunos com notas mais altas que aspiram a entrar em Medicina ou noutros cursos com médias de acesso elevadas. Como na maioria dos casos, mas não em todos, a nota de EF tende a baixar a média destes alunos, e a perda de umas décimas pode ser suficiente para impedir o aluno de entrar no curso pretendido, deixar de contar com a nota da disciplina pareceu, do ponto de vista destes alunos e das suas famílias, uma medida inteiramente justa.

Olhando o problema de uma forma mais global, as coisas já não são bem assim. Primeiro, porque para a maioria dos alunos a nota de EF é, no secundário, uma das melhores que conseguem obter. Sobe-lhes a média, não a desce. Segundo, porque pensar que retirando a nota do cálculo da média do secundário se facilita o acesso às vagas mais disputadas do ensino superior é em grande medida um engano, porque ela deixa de contar para todos. Ou seja, sendo o número de vagas o mesmo, a subida das médias dos candidatos – admitindo que todos ou quase todos os que vão para Medicina têm notas mais baixas a EF – provocará um aumento correspondente das médias de entrada.

Finalmente, e isto é algo de que todos os professores de Educação Física se queixam, e com razão, o empenhamento dos alunos deixou de ser valorizado porque a disciplina, dizem eles, “não conta para nada”. Num ensino secundário demasiado confinado ao papel preparação para a universidade e excessivamente orientado para os resultados, haver uma disciplina onde os resultados não contam é, claramente, um convite a que ela deixe de ser levada a sério.

Concordo, por isso, com a intenção do governo agora publicamente anunciada pelo secretário de Estado da Educação, no quadro de uma valorização de todas as vertentes do currículo, incluindo não só a expressão física e motora e também as outras expressões que foram secundarizadas ou mesmo abolidas dos currículos.

Mas faço uma ressalva, em relação a algo que também não estava bem no modelo anterior: em muitas escolas, a disciplina valorizava excessivamente a aptidão física dos alunos ou os seus resultados nas diferentes modalidades, em detrimento do esforço e da progressão individual de cada um. Na minha maneira de ver, e embora aceite que algum colega da área porventura me faça ver que estou errado, cada aluno deveria ser confrontado, não com o que fazem os colegas, mas com os seus próprios progressos.

Tentando ser mais claro, acho que merece melhor classificação o aluno sem grandes aptidões físicas que se esforça para conseguir dar o melhor de si mesmo do que o atleta federado que, mesmo fazendo muito menos do que é capaz, alcança melhores resultados do que a maioria dos seus colegas.

Espero, enfim, que estas e outras reflexões não fiquem de fora da discussão que as mudanças na avaliação da Educação Física certamente irão suscitar.

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2 thoughts on “Educação Física voltará a contar para a média do secundário

  1. A média de EF conta para a média do secundário, não conta é para a média de acesso. Não são a mesma coisa.

    Sou frontalmente contra a sua inclusão na média de acesso, por se tratar da única disciplina obrigatória do secundário cujo desempenho depende de fatores morfo-atléticos incontrolável pelos alunos.

    Acresce que está organizada numa panóplia de modalidades (cuja prática é por regra inferior a 4 semanas) que não permite qualquer proficiência em nenhuma delas.

    A concretizar-se será mais um factores a discriminar os alunos do público face ao privado (onde está garantido o 20 à disciplina).

    Quanto aos critérios de avaliação serão como os das outras disciplinas: ao critério de cada paróquia.

    Nota: sou irmão de um professor de EF.

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    • Caro Daniel, o que o 139/2012 diz é isto:

      4 — Exceto quando o aluno pretenda prosseguir estudos nesta área, a classificação na disciplina de Educação Física é considerada para efeitos de conclusão do nível secundário de educação, mas não entra no apuramento da média final.

      O que leio aqui é que só há uma média do secundário. A média de acesso depende também das provas específicas e varia conforme as exigências de cada curso.

      De resto, sou sensível, como escrevi no post, à questão das capacidades físicas dos alunos, e por isso sugiro que cada um seja avaliado sobretudo pelo empenhamento, participação, integração no grupo.

      Já a questão do 20-a-todos dos colégios, põe-se em relação a todas as disciplinas não sujeitas a exame nacional: se vamos por aí, então teríamos de retirar muitas outras disciplinas da média, nomeadamente as opcionais do 12º ano que são claramente sobrevalorizadas e servem sobretudo para compor médias.

      O que nos leva ao ingresso no ensino superior. Penso há muito que enquanto não se separar esse processo da avaliação do secundário nunca encontraremos boas soluções para os problemas específicos deste nível de ensino.

      Ou seja: não considerar a nota de EF para entrada em Medicina até pode ser uma boa ideia – tenho dúvidas, mas posso admiti-lo. Só que nesse caso deveriam ser as próprias faculdades de Medicina a decidi-lo e a assumi-lo. Não deve ser a escola secundária, ou quem a tutela, a dizer que esta ou aquela das suas disciplinas não conta.

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