O eclipse

eclipse.JPGDepois da invisibilidade e do desaparecimento, agora é o eclipse de Mário Nogueira. A imprensa de fim de semana continua a saga do sindicalista desaparecido que tenho vindo a acompanhar por aqui.

Nem todo o silêncio é bom e há silêncios que são ensurdecedores. É o caso do silêncio de Mário Nogueira, o secretário-geral da Fenprof, que durante o último ano não fez críticas nem agendou protestos contra medidas adotadas, ou não, pelo Ministério da Educação. 

Uma mudança de comportamento que salta à vista dos professores ouvidos pelo SOL e que é comentada entre os corredores das escolas, onde se recordam os protestos de grande dimensão organizados pela Fenprof durante a tutela de Maria de Lurdes Rodrigues e de Nuno Crato.

Curiosamente, ou talvez não, são geralmente os que mais protestam quando há greves, manifestações ou protestos mais intensos ou ruidosos da parte dos professores, alegando os prejuízos para os alunos ou a instabilidade nas escolas, os que agora se fingem incomodados com o silêncio de Mário Nogueira e da Fenprof.

Já por aqui demonstrei que, mais do que silêncio ou inibição nas críticas, o que há acima de tudo é um claro apagamento de iniciativas da Fenprof da agenda noticiosa, evitando por isso voltar a uma matéria recorrente e que daria pano para mangas.

O que gostaria de acrescentar é que, ao contrário do que por vezes se quer fazer crer, a classe docente portuguesa não é maioritariamente formada por radicais de esquerda, manipuláveis por partidos políticos e sempre dispostos a greves e outras formas de luta mais ou menos musculadas em defesa dos seus interesses.

As lutas sindicais dos professores sempre se fizeram mais pela negociação e o compromisso do que pelo radicalismo das lutas. Mesmo as greves ocorreram geralmente como último recurso em momentos de bloqueio negocial e de tentativa de imposição de medidas gravosas para os professores. A greve nunca foi um fim em si mesmo ou uma forma de conseguir directamente alguma coisa, mas sim uma demonstração da vontade e da unidade dos professores que permitisse aos seus representantes retomar, com força e legitimidade acrescidas, os processos negociais.

É assim que se explica que, por exemplo, nos dez anos de cavaquismo tenha havido relativamente poucas greves de professores, que contudo nunca deixaram de lutar pelos seus direitos, enquanto a forma arrogante e humilhante como o primeiro governo de Sócrates tratou os professores os conduziu aos maiores e mais intensos protestos de sempre contra as políticas do governo.

Seja o governo de esquerda ou de direita, mais ou menos amigo deste ou daquele sindicalista, o que de facto empurra os professores para a greve ou para grandes manifestações e protestos é a intransigência com que impõem aos professores medidas lesivas dos seus interesses e da sua dignidade profissional, ao mesmo tempo que fecham a porta a efectivas negociações. Mas é claro que leituras simplistas e demagógicas da situação político-sindical preferem sempre fulanizar as questões, tirando partido de um facto indesmentível que é a excessiva presença e instrumentalização dos partidos políticos nos sindicatos de professores.

As circunstâncias do actual governo, nascido do apoio de uma imprevista aliança das esquerdas, fazem da negociação e da procura de consensos um imperativo permanente na acção dos governantes. Por outro lado, negociar implica ceder nalgumas coisas para obter ganhos noutras, perceber os limites do parceiro negocial e obter contrapartidas e compromissos onde eles podem ser alcançados. O que a generalidade dos professores actualmente espera dos seus sindicatos representativos é que defendam os seus interesses através do envolvimento nesse processo negocial laborioso e necessariamente prolongado, tendo em conta a situação do país.

Nas salas de professores, ou nos “corredores das escolas”, como prefere dizer a jornalista, não me tenho apercebido de que colegas impacientes andem a exigir a convocação de mega-manifestações ou o anúncio de um calendário de greves. Importar-se-ão os senhores jornalistas e os comentadores cuja opinião se publica que sejam os professores, e os seus sindicatos, a fazer a sua própria agenda, em função dos seus reais interesses?

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