Descer as notas inflacionadas

uniforme_atual.pngOs alunos que frequentam escolas que inflacionam as notas internas podem vir a ter as suas classificações “automaticamente ajustadas” no processo de acesso ao Ensino Superior. Esta é uma das medidas previstas no grupo de trabalho, citada pelo ministro da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior, Manuel Heitor, em declarações ao Jornal de Notícias. O objectivo é responder à existência de escolas que inflacionam os resultados dos alunos, gerando discrepâncias entre a classificação interna (resultante do trabalho desenvolvido pelo aluno ao longo de todo o ano) e a classificação externa (nota obtida nos exames).

Desta não se lembrou o Nuno Crato, o ministro das estatísticas, sempre tão atento a médias e variâncias, modas e desvios-padrão. Mas é perfeitamente possível fazer-se: havendo um padrão constante e bem definido de inflacionamento das notas por parte de determinadas escolas – maioritariamente colégios bem conhecidos por essa prática e que dessa forma atraem a maior parte dos alunos – é possível introduzir um factor de correcção nas notas atribuídas, aproximando-as do que seriam as realmente merecidas.

Na prática, o que estas escolas fazem é vender aos seus alunos classificações elevadas, de forma a aumentar as médias finais com que os alunos se candidatam aos cursos do ensino superior com nota de entrada mais elevada. Trata-se no fundo de subverter o princípio meritocrático na base do sistema de acesso ao ensino superior, criando um mecanismo de natureza classista destinado a favorecer a entrada na universidade aos que têm dinheiro para pagar as mensalidades caras nos colégios, que assim ultrapassam, nas listas de graduação, os colegas menos afortunados das escolas públicas.

Num claro paradoxo, temos alunos vão para o ensino secundário privado para conseguirem as notas que lhes darão acesso ao ensino superior público. Enquanto muitos alunos do ensino secundário público, com  notas mais baixas, só conseguem lugar nos cursos pretendidos em universidades privadas.

A medida agora proposta, contudo, nunca seria para aplicar já. Mesmo que existisse o consenso que o ministro considera necessário para avançar com ela já em 2017, só iria abranger os alunos que entrem em 2017 no 10º ano, e que só em 2020 estarão em condições de concorrer ao ensino superior. Vale sobretudo, pelo menos para já, pelo reconhecimento, por parte do governo, de um problema que tem sido escamoteado e que põe em causa a credibilidade e a justiça do processo de candidatura e acesso ao ensino superior.

Ainda assim, a manipulação estatística das notas parece-me mais um paliativo do que uma solução de fundo para o problema de, havendo mais candidatos do que vagas, fazer uma selecção justa dos futuros estudantes. Continuo a pensar que as instituições do ensino superior estarão sempre, ou deveriam estar, mais bem motivadas e preparadas do que os professores ou os exames do secundário para escolher os alunos com o perfil e os conhecimentos mais adequados para cada curso.

Uma mera afinação no processo de atribuição das notas do secundário, apenas para minimizar algumas injustiças mais evidentes e indecorosas, parece-se demasiado com uma mudança que se faz só para que tudo o resto possa continuar na mesma.

Anúncios

One thought on “Descer as notas inflacionadas

Comentar

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s