Fatal como o destino?

analfabeta.jpgEntre os alunos cujas mães têm licenciatura ou bacharelato, a percentagem de “percursos de sucesso” no 2.º ciclo do ensino básico é de 80%. Já entre os alunos cujas mães têm habilitação escolar mais baixa, equivalente ao 4.º ano, a percentagem baixa para os 26%, quantifica o estudo Desigualdades Socioeconómicas e Resultados Escolares – 2.º ciclo do ensino público geral.

As discrepâncias são ainda mais evidentes quando se compara o percurso dos alunos cujas mães não possuem qualquer habilitação com o percurso daqueles cujas mães têm mestrado ou doutoramento: a diferença vai dos 8% aos 83%.

Por definição, segundo o Ministério da Educação, um aluno com “percurso de sucesso” no 2.º ciclo (5.º e 6.º anos de escolaridade) é um aluno que obteve positiva nas duas provas finais do 6.º ano de 2014/15 (Português e Matemática), após um percurso sem retenções no 5.º ano.

Os estudos da DGEEC continuam a comprovar o que já se sabia, que um factor essencial para o sucesso escolar dos alunos é a escolarização da sua família. E quando a diferença, na possibilidade de ter um percurso escolar bem sucedido vai do 8 ao 80, dependendo das habilitações da mãe, estamos provavelmente perante o factor que mais fortemente condiciona o sucesso nas aprendizagens escolares.

A partir daqui podem tirar-se algumas conclusões simples e evidentes: uma mãe que estudou, tem maior consciência da importância da educação escolar para a formação dos seus filhos e para o alargamento do leque de escolhas, de formação, de profissão e de vida, que poderão fazer em adultos. Acompanhará atentamente a vida escolar dos filhos, apercebendo-se mais facilmente de eventuais problemas ou dificuldades, aconselhando-os e estimulando as suas aprendizagens.

Outra coisa que estas estatísticas denotam é o peso excessivo que recai sobre as mães no acompanhamento da vida escolar dos filhos: não será a realidade de muitas famílias, mas em termos estatísticos, continua a verificar-se que a influência da escolarização dos pais na melhoria dos resultados dos filhos é bastante reduzida.

No final, surge a questão incontornável: o que fazer com todo este insucesso, de certa forma induzido pelo meio sócio-familiar? Sendo evidente que as crianças não têm culpa de o pai ou a mãe terem mais ou menos estudos, o que podem fazer as escolas para concretizar, a este nível, a tão falada igualdade de oportunidades? Será que, como se sugere na peça, o dinamismo da escola superar todos os escolhos que estão a montante e que geram dificuldades e bloqueios na aprendizagem?

Pessoalmente, creio que a acção da escola, dependendo da gravidade dos casos e dos meios ao seu dispor, pode até certo ponto atenuar os efeitos negativos do background social e familiar no sucesso escolar. Mas não me parece que a escola se possa, ou deva sequer, substituir à família.

E acho perigosa uma tentação recorrente dos últimos anos, que é a de querer mudar a escola para evitar intervir nas questões mais complexas que envolvem políticas sociais de emprego, habitação, rendimentos, família, ordenamento de território ou igualdade de género.

A mudança social constrói-se com a escola, mas não se faz apenas, como algumas vezes se sonhou, a partir da escola.

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One thought on “Fatal como o destino?

  1. Já se sabe disso, mas nunca é demais lembrar… Num país com niveis de formação ainda dos mais baixos da Europa, é preciso lembrar constantemente o valor e a importância da educação.
    Também concordo totalmente que a mudança se faz COM a escola e envolvendo toda a sociedade, pais, comunidades educativas. Mas é preciso mesmo que a escola queria e esteja aberta a esse processo, o que nem sempre é claro…

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