Ensino dual 2.0

illustration-regeln8.jpgA encerrar a visita de Estado à Suíça, Marcelo Rebelo de Sousa criticou o anterior o governo de Passos Coelho por ter apresentado uma proposta para o sistema de ensino dual “discriminatório” que obrigava a escolhas “precoces”. O Presidente considerou que o atual governo “não pode desperdiçar” a oferta do Presidente suíço, para a transmissão de know-how, sobre o sistema que permite combinar educação com saídas profissionais.

A crítica do Presidente assenta direitinha na demagogia de Passos Coelho e do seu ministro Nuno Crato, que invocaram o ensino dual, um subsistema que funciona com assinalável sucesso em países como a Suíça ou a Alemanha, como modelo e inspiração, entre nós, do ensino vocacional.

Só que o ensino dual é um sistema profissionalizante, que recebe alunos no final da escolaridade obrigatória e conjuga a educação escolar com a formação profissional: os alunos estudam e trabalham, recebem uma formação técnica especializada nas empresas onde fazem os seus estágios, que são remunerados, e na maior parte dos casos obtêm emprego nas próprias empresas onde estagiaram. Tirando a parte do pagamento e a do emprego, dois pontos onde o nosso empresariado tende a fraquejar, o ensino dual tem um equivalente aproximado, entre nós, no ensino profissional.

Já os cursos vocacionais, alegadamente inspirados no ensino dual alemão, são exactamente o oposto do modelo inspirador: recebiam alunos muito jovens, logo a partir dos 13 anos, encaminhando-os para escolhas vocacionais precoces e ainda mais sem sentido quando se sabe que estes alunos terão de permanecer no sistema de ensino até aos 18 anos a coleccionar “vocações”. O ensino vocacional de Nuno Crato, em boa hora extinto, nunca passou de uma medida fácil e demagógica destinada a retirar das turmas regulares e das pautas de exame alunos que nunca aí teriam sucesso.

Quanto ao verdadeiro ensino dual, ao conseguir transformar alunos medíocres e desmotivados em técnicos competentes ao serviço das empresas que neles investem, terá por certo muitas virtualidades. A questão é saber se teremos condições para replicar, entre nós, o sucesso que as escolas, as empresas e os alunos/formandos obtêm, em diversos países da Europa central, com o ensino dual.

A debilidade do tecido empresarial, assente muito mais numa economia de serviços pouco diferenciados do que na produção altamente especializada e com forte componente tecnológica e a falta de capitais e de visão a longo prazo da maioria das nossas empresas não têm incentivado o investimento na formação e na qualificação do seu pessoal. E sem empenhamento das empresas num modelo de formação profissional e académica feito à medida das suas necessidades, não vale a pena apostar, uma vez mais, numa iniciativa em que o Estado acabe a suprir a falta de colaboração e de iniciativa das empresas.

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3 thoughts on “Ensino dual 2.0

  1. Caro António Duarte,

    é lúcido nas críticas, mas falta uma referência essencial no artigo.

    E o que diz dos CEF, criados antes de Nuno Crato e de PPC, e ressuscitados agora?
    As críticas ao ensino vocacional dual não se aplicam a este sistema?

    Tudo o que aponta aos cursos vocacionais assenta nos CEF.
    Só que agora o ministro não se chama Crato e o governo é outro.

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    • Há algumas diferenças entre os CEF e os Vocacionais, embora não muito significativas.

      Miúdos de 13 anos não entram para um CEF, que é suposto destinar-se a alunos um pouco mais velhos, que tenham já 16 anos quando forem para estágio.

      Nos CEFs há apesar de tudo programas oficiais para as disciplinas, há um elenco de cursos oficializado, cada um com o seu plano curricular próprio.

      Já nos Vocacionais cada escola fez o que quis, valia tudo. Alunos na mesma turma, uns a fazerem o curso num ano, outros em dois. Turmas com alunos do 2º e do 3º CEB tudo misturado. E por aí fora. Era claramente o intuito de se arrumarem para ali os alunos problemáticos e entretê-los com qualquer coisa, para não “estragarem” as outras turmas e não irem a exame perturbar a trajectória ascendente dos resultados que se estava laboriosamente a construir.

      Dito isto, acho que num quadro de escolaridade obrigatória de 12 anos deixaram de fazer sentido as vias profissionalizantes no 3º CEB, sejam CEFs ou Vocacionais.

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  2. Os vocacionais de secundário foram (são) uma aberração ainda maior. Para quê se existiam cursos profissionais consolidados e estruturados?

    Os alunos dos CEF deveriam ter 15 anos à entrada, diz a Lei. Muitos não têm. Há despachos e exceções e tal.

    Concordo em absoluto. Num quadro de escolaridade até aos 18, não fazem sentido vias profissionalizantes que terminem antes disso.

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