Os professores bem pagos: o “estudo” que faltava…

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Fatal como o destino: em qualquer série de estudos que se preze sobre a educação portuguesa, não pode faltar o habitual desfile de números destinados a demonstrar que os professores portugueses ganham demasiado. Nem interessa se se comparam carreiras docentes congeladas e penalizadas com agravamentos de impostos, como a portuguesa, com as de países onde houve valorizações salariais significativas nos últimos anos, que é o caso da maioria dos estados europeus.

Num conjunto de 10 países analisados, apenas em dois os professores são, em média, mais bem pagos que os restantes trabalhadores da função pública com ensino superior. Portugal é um deles, com os docentes a ganharem mais 23% em média, segundo dados de 2012 para quem dava aulas no 3.º ciclo e no secundário.

Portugal pode pagar aos seus professores mais do que à generalidade dos outros funcionários do Estado, mas nem por isso os resultados dos alunos são os melhores. Em 2012 ficaram na média da OCDE ou abaixo, consoante o tipo de literacia avaliada (leitura, matemática, científica).

Já a Polónia, um dos casos de sucesso recente no PISA, os professores recebem menos, quer comparando com outros grupos profissionais no mesmo país, quer comparando com os docentes de outros Estados da OCDE participantes. Também na Finlândia, onde os resultados são tradicionalmente altos, os salários dos docentes não são dos mais altos.

Dizem-nos que ganhamos mais, proporcionalmente, do que os professores da Polónia ou da Finlândia, países que estão a conseguir melhores resultados educativos. O que pode ter duas leituras. Uma, a de que pagar mal aos professores não se reflecte nos resultados dos alunos, que é talvez o que nos querem fazer pensar. Outra, menos óbvia, mas provavelmente mais verdadeira, é que não sendo o salário do professor um factor determinante do sucesso do aluno, também não é com professores desmotivados, explorados e mal pagos que se conseguem os melhores resultados.

No meu caso, dispensaria certamente o mirífico 10º escalão da carreira que ainda nenhum professor alcançou e onde não chegarei, mas que tanto jeito tem dado para inflacionar salários docentes em comparações internacionais, em troca da possibilidade de ter alguma progressão real numa carreira onde ganho menos agora do que há dez anos atrás.

Mais ainda do que a valorização salarial, os professores portugueses queixam-se, segundo a notícia, do excesso de trabalho burocrático, da indisciplina e da falta de reconhecimento social da profissão.

E a verdade é que este tipo de “estudos”, encomendados em função da agenda de diversos interesses que se movem no sector da educação, também nada contribuem, nem para dignificar a função dos professores, nem para a construção dos ultimamente muito reclamados consensos necessários ao sector. Indispensáveis, dizem-nos, mas de cuja discussão os professores continuam a ser sistematicamente arredados.

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